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New West Indian Guide
Vol. 83, no. 3&4(2009), pp. 249-280
URL: http://www.kitlv-journals.nl/index.php/nwig/index
URN:NBN:NL:UI:10-1-100125
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ISSN: 1382-2373
ANTON DE KOM E A FASE INICIAL DO MOVIMENTO DE DESCOLONIZAÇÃO DO SURINAME
Peter Meel
Tradução de Helio Rocha
“Wij slaven van Suriname” (Nós, escravos do Suriname), de Anton de Kom (1898-1945), destaca-se como um dos clássicos da historiografia surinamesa e um dos livros mais debatidos entre os estudiosos contemporâneos dedicados aos estudos sobre o Suriname. Curiosamente, só recentemente a obra alcançou esse status de destaque[1]. Na época de sua publicação (1934), Wij slaven van Suriname não atraiu um público significativo além do círculo de escritores, ativistas, sindicalistas e políticos de orientação comunista do qual o livro se origina ideologicamente. Desacreditado pela classe política e sem cobertura substancial da mídia, poucas pessoas, tanto na Holanda quanto no Suriname, tomaram conhecimento da obra[2].
No início da década de 1970, estudantes surinameses na Holanda redescobriram Wij slaven van Suriname, considerando o livro um marco na expressão de um verdadeiro anticolonialismo surinamês. Os jovens surinameses viam De Kom como um precursor do nacionalismo que defendiam e se sentiam particularmente inspirados por seu apelo à lealdade de classe e à justiça social. De volta ao Suriname, esses graduados aspiravam transformar a mensagem de Wij slaven van Suriname em ação política. No entanto, os partidos políticos que fundaram não geraram o apoio público que esperavam. No início da década de 1980, quando o país estava sob regime militar, vários representantes de esquerda radical desses partidos aceitaram altos cargos na administração do país e declararam De Kom um herói nacional. Essa homenagem oficial deu origem a reimpressões de Wij slaven van Suriname, uma edição em espanhol da obra em Havana e a uma crescente identificação popular do livro com a luta anticolonialista e anti-imperialista.
Essa reavaliação da obra de De Kom foi acompanhada e sustentada por uma mudança no julgamento acadêmico. Do final da década de 1940 até o início da década de 1980, a influente história social do Suriname, escrita por Rudolf van Lier, havia determinado em grande parte a imagem de De Kom. Aderindo à teoria pluralista, Van Lier abordou cuidadosamente as causas e os efeitos psicológicos dos distúrbios trabalhistas da década de 1930 no Suriname, nos quais De Kom esteve envolvido. Ele considerou a demonstração, por parte do autor, da mentalidade do surinamês de classe baixa – particularmente conforme demonstrada na memória dos sofrimentos suportados pelos ancestrais dos afro-surinameses – o principal mérito de Wij slaven van Suriname. No entanto, Van Lier (1971:370) também argumenta que essa memória havia se tornado “parte de um sentimento patético de injustiça e rancor que, por mais justificado que fosse pelas circunstâncias em que as classes mais baixas se encontravam, prejudicava uma visão adequada do passado”. O autor parecia sugerir que De Kom, ele próprio um representante dessas classes, se agarrava a uma visão igualmente partidária.
Em 1982, Sandew Hira publicou um livro que marcou um ponto de inflexão na avaliação de Wij slaven van Suriname. Hira criticou severamente Van Lier por seu apoio ao pluralismo e por dar ênfase à heterogeneidade étnica e à importância da cultura holandesa para o processo de formação de uma identidade surinamesa comum. Hira, por outro lado, defendia a adoção do marxismo como um marco teórico mais adequado, indicava que o anticolonialismo havia sido o fio condutor da história surinamesa e promulgava a solidariedade de classe como o instrumento adequado para se chegar a uma sociedade baseada na justiça social. Em seu livro, ele chamou De Kom de “o maior revolucionário de nossa história” e Wij slaven van Suriname de sua “obra-prima literária”, não apenas por causa de seu feroz anticolonialismo, mas particularmente porque, pela primeira vez, o livro demonstrou “que também nosso povo tem uma história de resistência que pode nos ensinar muito” (Hira 1982:vii-ix)[3]. Foram frases como essas que, no início da década de 1980 – quando a República do Suriname ainda estava em sua infância –, coincidiram com a necessidade de um surinamês progressista cujos escritos pudessem oferecer apoio ideológico e inspiração e que pudesse, metaforicamente, conduzir a sociedade rumo a um futuro mais promissor. Na esteira da obra de Hira, surgiram muitos outros estudos publicados que conferiram a De Kom o status de um verdadeiro surinamês que agiu à frente de seu tempo e deu a vida pelo ideal da liberdade[4].
Embora uma postura anticolonial e noções de esquerda sejam certamente as principais características de Wij slaven van Suriname, um enfoque desigual nesses elementos – especialmente se esse enfoque se limitar ao domínio da retórica política – obscurece a versatilidade da investigação de De Kom e a estrutura complexa e intrigante do livro. Neste artigo, revelo as visões e convicções expostas em Wij slaven van Suriname e suas inovações do ponto de vista da historiografia. Argumento que Wij slaven van Suriname marca uma nova etapa na escrita da história surinamesa e uma maneira inovadora de lidar com o passado do Suriname. Para determinar as características do livro e sua contribuição para a historiografia caribenha, justaponho Wij slaven van Suriname com duas outras obras pioneiras no pensamento político caribenho: Capitalism and Slavery, de Eric Williams (1911-1981), e The Black Jacobins, de C.L.R. James (1901-1989).
Não é meu objetivo fazer uma comparação detalhada das três obras. Minha intenção é traçar e destacar as particularidades de Wij slaven van Suriname, contrastando a obra de De Kom com as duas obras-primas intelectualmente afins. Embora isso implique uma análise superficial, em vez de exaustiva, uma breve reflexão permite um exame mais aprofundado das ideias principais de Wij slaven van Suriname e revelará de forma mais completa suas qualidades inerentes e seu significado historiográfico. Consequentemente, espero demonstrar que o perfil caribenho de De Kom, até então surpreendentemente fraco, não se justifica, dado que sua obra representa a fase formativa da descolonização surinamesa e, portanto, merece um lugar de destaque na historiografia caribenha do século XX[5].
O PAPEL DE ACUSADOR E A PERSPECTIVA SURINAMESA
Wij slaven van Suriname é um livro excepcional. Trata-se da primeira obra sobre a história do Suriname escrita por um autor surinamês a partir de uma perspectiva surinamesa. Além disso, é a primeira obra a apresentar uma visão crítica dos desenvolvimentos contemporâneos no Suriname e a promover um modelo voltado para uma “reconstrução” da sociedade surinamesa. Por fim, é a primeira obra que combina um relato dos principais acontecimentos históricos do Suriname com um forte envolvimento pessoal, como atestam os retratos da juventude do autor no Suriname e a narrativa de sua breve carreira de ativista em seu país natal. É essa combinação de elementos que confere a Wij slaven van Suriname sua particular qualidade e importância.
De Kom não foi o primeiro historiador autodidata do Suriname. Em Wij Slaven van Suriname, o autor reconhece explicitamente que seus antecessores lhe forneceram dados substanciais e insights valiosos. Entre as publicações fundamentais para a criação de Wij Slaven van Suriname, destacam-se três volumes clássicos: Geschiedenis van Suriname (História do Suriname, 1861), de Julien Wolbers, um conhecido abolicionista e pesquisador confiável; Beschrijving van Guiana of de Wilde Kust in Zuid-Amerika (Descrição da Guiana ou da Costa Selvagem na América do Sul, 1770), de Jan Jacob Hartsinck, filho de um diretor da Sociedade do Suriname (Companhia do Suriname) sediada na metrópole e um compilador meticuloso de documentos de arquivo relacionados ao governo colonial dos séculos XVII e XVIII; e a mundialmente famosa Narrative of a Five Years’ Expedition against the Revolted Negroes of Surinam (1796), de John Gabriel Stedman, um relato criticamente intransigente do tratamento desumano da população escrava do Suriname, escrito por um voluntário militar de ascendência escocesa que servia no exército holandês no Suriname e contratado para caçar escravos fugitivos. Além dessas obras, De Kom, em Wij slaven van Suriname baseou-se em outra literatura secundária, escrita principalmente por autores holandeses, e em uma pequena seleção de relatórios do governo holandês e artigos de jornais surinameses.
Ao narrar a história do Suriname desde a chegada dos europeus nos tempos de Colombo até a crise sociopolítica de meados da década de 1930, De Kom aplica com perspicácia as conclusões apresentadas por Wolbers, Hartsinck e Stedman ao seu próprio trabalho. No entanto, seu método de trabalho e seu objetivo diferem substancialmente dos outros autores. Em primeiro lugar, o relato de De Kom é uma versão altamente condensada e idiossincrática dos extensos escritos dos autores que ele tanto admira. Em Wij slaven van Suriname, muitos eventos e desenvolvimentos importantes são pouco abordados ou simplesmente omitidos. Isso não é consequência da escassez de fontes disponíveis na época da redação, mas uma questão de seleção deliberada. Ao preparar sua publicação, a representatividade não era o objetivo de De Kom, e a exaustividade, ainda menos. Ele também não pretendia que sua obra fosse uma contribuição para os estudos históricos, pois não nutria quaisquer ambições acadêmicas.
Uma diferença adicional em relação às obras de seus antecessores, Wolbers e Hartsinck em particular, é o tom que De Kom utiliza para expor as injustiças a que o povo de seu país natal vinha sendo submetido há tanto tempo. Esse tom reflete o papel de acusador que o autor assumiu para defender seus argumentos. Obviamente, De Kom, nesse aspecto, foi influenciado e inspirado pelo extenso catálogo de crueldades contra escravos e maroons perpetradas pelas autoridades coloniais no Suriname do século XVIII, compilado por Stedman. Os parágrafos dedicados a esses abusos na narrativa de Stedman haviam chocado seus leitores contemporâneos, ainda mais porque havia gravuras acompanhando o texto igualmente horrível e alarmante. As brutalidades também causaram impacto em De Kom, que desejava compartilhar as observações de Stedman com seus colegas.
Além da Narrativa de Stedman, um pequeno livro intitulado Zuid-zuid-west (Sul-Sudoeste, 1923), escrito pelo escritor surinamês e aclamado homo universalis Albert Helman (pseudônimo de Lou Lichtveld), serviu de fonte de inspiração para De Kom. Essa bela obra de prosa lírica causou um escândalo na Holanda porque incluía vários ataques contundentes à – o que o autor considerava ser – a hipocrisia dos holandeses. Ele argumentava que, nos séculos XVII e XVIII, os holandeses haviam lucrado imensamente com a exploração dos recursos naturais do Suriname, mas, especialmente após a abolição da escravidão em 1863, haviam negligenciado cada vez mais a colônia em declínio. Para indignação de Helman, a metrópole aceitou apenas com relutância a obrigação de apoiar o Suriname com ajuda financeira e teimosamente se recusou a oferecer à colônia soluções sustentáveis para seus problemas urgentes.
Os ecos tanto de Stedman quanto de Helman podem ser facilmente percebidos em Wij slaven van Suriname, que contém inúmeras observações amargas e sarcásticas, bem como graves acusações (repetidamente disfarçadas de perguntas retóricas) sobre a ganância econômica, o fanatismo religioso, a barbárie cultural, a falta de confiabilidade política, a irresponsabilidade moral e a indiferença jurídica do colonizador holandês. Nesses parágrafos, o autor lança acusações sem inibições na cara dos detentores do poder e expressa sua descrença na possibilidade de uma reforma colonial em benefício de seus compatriotas[6]. De Kom, em Wij slaven van Suriname, assemelha-se a Helman ao aplicar o estilo apaixonado e poético deste último, conforme demonstrado em Zuid-zuid-west. Isso fica particularmente evidente na inclusão, em Wij slaven van Suriname, de descrições líricas da mama Sranan[7] e na incorporação de parágrafos que, quase imperceptivelmente, ultrapassam os limites da não ficção[8].
Embora o papel de acusador que De Kom assumiu seja uma característica marcante de Wij slaven van Suriname, o aspecto mais inovador do livro é o uso que o autor faz de uma perspectiva surinamesa. Até a década de 1930, a escassa literatura sobre a história do Suriname refletia, em grande parte, o interesse que os pesquisadores da metrópole tinham pelos aspectos institucionais dos avanços políticos e econômicos do país. Em suas obras, a população nativa desempenhava um papel insignificante. Os habitantes não brancos do Suriname eram retratados como membros casuais de grupos amorfos de trabalhadores, contribuindo para a individualidade. De Kom merece reconhecimento por seus esforços incansáveis para suprir essa lacuna. Inspirado pelos escritos de Stedman, Wolbers e, principalmente, Helman, ele demonstra uma preocupação sincera com o surinamês comum e efetivamente coloca esse envolvimento em primeiro plano em Wij slaven van Suriname. Ao elevar figuras anteriormente subordinadas ao nível de protagonistas, ele confere aos invisibilizados e aos impotentes um senso de autoestima e identidade.
De Kom estava bem-preparado para lhes transmitir uma nova autoconfiança, sendo ele próprio descendente de escravos. Possuía uma empatia natural e – mais importante ainda – um profundo conhecimento das pessoas sobre as quais escrevia. Suas experiências como criança e estudante, criado em uma família afro-surinamesa de classe baixa em Frimangron[9], e mais tarde como adulto tentando encontrar uma ocupação adequada e ganhar a vida dignamente, combinadas com sua imersão nos ideais comunistas na Holanda, o tornaram extremamente consciente da subordinação dos afro-surinameses de classe baixa na sociedade surinamesa. Assim, De Kom, que era um insider, diferia marcadamente dos outsiders Stedman e Wolbers, o primeiro um visitante engajado, mas temporário, o segundo um investigador diligente que nunca pisou em solo surinamês. Embora, como escritores nascidos no Suriname, ambos fossem parte do meio cultural local, De Kom e Helman não compartilhavam uma origem étnica e de classe comum. Os ancestrais de Helman eram originários do Pará (geralmente considerado um lugar de “negros”), mas eram de ascendência mestiça, e não afro-surinamesa. Helman foi criado em Paramaribo, em uma família de classe média que mantinha relações pessoais e profissionais com a elite local. Ele se identificava com o mundo para além de suas raízes, obteve uma educação pré-universitária na Holanda e, desde cedo, adotou uma visão cosmopolita da vida. Ao contrário de Helman, De Kom não viveu em relativa prosperidade desde a infância, nem se beneficiou de um ambiente intelectual estimulante. Além disso, ele nunca faria parte do sistema, nem no Suriname nem na Holanda.
Na primeira parte de Wij slaven van Suriname, “A Era da Escravidão”, a perspectiva de De Kom é, em grande parte, coerente com o que pode ser denominado – utilizando o vocabulário da época – a “perspectiva do negro”. Após algumas seções introdutórias sobre os “escravos indígenas”, nas quais o autor discute com sensibilidade o terrível destino desses homens e presta homenagem aos atos de resistência desses “corajosos surinameses”[10], De Kom relata detalhadamente as crueldades na Middle Passage[11] (passagem do meio), as dificuldades dos escravos (“nossos pais”) nas plantations, a vida de luxo e abundância em que seus senhores se deleitavam e as punições excessivas a que os escravos eram submetidos. Compreensivelmente, sua raiva e indignação eram direcionadas principalmente ao tratamento injusto e desumano que muitos homens, mulheres e crianças escravizados sofreram.
Mais especificamente, a crítica de De Kom diz respeito à supressão deliberada do “passado negro” nos programas educacionais predominantes na colônia naquela época. Nas aulas de história do ensino fundamental e médio, as crianças surinamesas aprendiam com grande detalhe sobre a vida e a época dos governantes e administradores metropolitanos brancos, mas as informações e explicações sobre os méritos e realizações de seus ancestrais eram ocultadas. O comentário de De Kom sobre os efeitos psicológicos dessa versão tendenciosa da história é inequívoco:
Não há melhor forma de cultivar o complexo de inferioridade de uma raça do que essas aulas de história dedicadas exclusivamente a nomear e elogiar os filhos de outro povo. Levei muito tempo para me libertar completamente da obsessão de que um negro deve ser sempre e incondicionalmente inferior a qualquer homem branco... Nenhum povo pode amadurecer plenamente se mantiver um complexo de inferioridade como um defeito hereditário. Por essa razão, este livro procura elevar a autoestima dos surinameses e provar a falsidade das intenções pacíficas dos holandeses na época da escravidão. (De Kom 2003, p. 60)[12].
Em Wij slaven van Suriname, esta citação faz uma transição hábil entre as seções sobre a escravidão e a fuga dos escravos, sendo que as “intenções de paz” servem como referência às sucessivas negociações que as autoridades coloniais iniciaram para conter os maroons em revolta. Em vários casos, essas deliberações resultaram em tratados de paz oficiais, corretamente julgados por De Kom como manifestações da estratégia de dividir para conquistar, uma vez que os maroons pacificados tiveram de se contentar com posições periféricas no interior do Suriname e foram obrigados a aliar-se ao governo local para derrotar seus companheiros maroons não pacificados.
Em seu livro, De Kom orgulhava-se notavelmente de prestar grande homenagem ao que as autoridades coloniais consideravam “escória”, mas que ele definia como “lutadores pela liberdade”. Ao avaliar as guerras de guerrilha que os líderes dos maroons travaram contra os holandeses, De Kom destaca a coragem, a generosidade, o senso de justiça e a arte da guerra que esses comandantes demonstraram e leva em consideração seus ganhos e perdas em termos de território, bem-estar e qualidade de vida. Além disso, ele elogia seus esforços para promover o sentimento de liberdade entre seus seguidores. Na década de 1930, essa abordagem respeitosa de grupos populacionais até então negligenciados, se não desprezados, representou uma maneira inovadora de lidar com o passado. Isso abriu caminho para a versão inclusiva e abrangente da história do Suriname comumente adotada na República do Suriname hoje.
Arrebatado por seus ideais de emancipação, De Kom não consegue resistir de forma consistente à tentação de conferir proporções míticas aos seus heróis. No entanto, ao mesmo tempo, ele admite que muitas vezes a maroonagem carecia das características guerrilheiras retratadas de forma tão vívida em sua obra. Aludindo a formas de resistência não armada centradas na inventividade e na astúcia, ele se refere à conhecida figura alegórica de Anansi, a aranha trapaceira, que, sentada nas costas do Rei Tigre, enfurece seu inimigo, cobrindo seu corpo com pequenas picadas venenosas. No entanto, quer a oposição fosse drástica ou sutil, a mensagem de De Kom é clara: a maroonagem serviu a uma causa séria, demonstrou uma necessidade intrínseca de liberdade característica da humanidade e, nesse sentido, prenunciou o anticolonialismo moderno. Sua relevância real, porém, é em grande parte simbólica. Em Wij slaven van Suriname, De Kom não deseja de forma alguma sugerir que os surinameses contemporâneos tivessem de usar meios militares para resistir ao colonialismo.
Na segunda parte de Wij slaven van Suriname, intitulada “A Era da Liberdade”, a perspectiva surinamesa abrange os grupos populacionais que compõem a sociedade desde as décadas pós-emancipação. Além da atenção que dedica aos descendentes dos “escravos negros”, De Kom, nesta seção, relata os movimentos dos indianos orientais (chamados de hindustânicos no Suriname) e javaneses (originários da Indonésia, mas não exclusivamente de Java), que haviam entrado no Suriname como trabalhadores contratados e que, após o término de seus contratos, tentaram ganhar a vida em sua nova pátria, geralmente na agricultura de subsistência e na produção de alimentos para o mercado local.
Muito antes de Tinker (1974) classificar o trabalho por contrato como “um novo sistema de escravidão”, De Kom criou uma categoria de “escravos” na qual incluiu escravos, trabalhadores por contrato e seus descendentes. É a essa categoria ampliada que ele se refere no título de sua obra-prima[13]. Em sua opinião, não apenas a população “negra” havia sofrido nas plantations, mas seus sucessores também haviam suportado (e, no caso dos javaneses, ainda suportavam) as dificuldades da exploração e da degeneração, apesar das características humanas que esses trabalhadores recebiam e dos direitos de que gozavam de acordo com os regulamentos oficiais. De Kom defendia que não as diferenças étnicas entre os grupos populacionais surinameses, mas suas semelhanças em status social e bem-estar econômico deviam ser consideradas um elemento-chave na criação de uma sociedade surinamesa livre de exploração e subordinação[14].
RECONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE SURINAMESA
Como “A Era da Liberdade” aborda questões e acontecimentos contemporâneos, seu foco recai mais sobre a política do que sobre a história. Nesta segunda seção, De Kom demonstra sua familiaridade com a obra do autor holandês do século XIX Multatuli (pseudônimo de Eduard Douwes Dekker), que, com base em experiências de serviço colonial na Indonésia, havia criticado severamente o trabalho forçado e a exploração dos javaneses em seu famoso romance Max Havelaar (1860), mas que mais tarde também rejeitou o trabalho livre, classificando-o como um sistema propenso a abusos e maus-tratos. No Suriname, afirmou De Kom, os trabalhadores livres tinham muito em comum com seus “companheiros” na parte oriental do império colonial holandês. Em ambas as regiões, sentimentos de humilhação e angústia eram predominantes entre a classe trabalhadora.
Isso ficou particularmente evidente na década de 1930. Em resposta à crise econômica mundial, o governo holandês lançou uma rigorosa política de austeridade, embora medidas substanciais destinadas a aliviar o sofrimento dos pobres e dos desempregados parecessem igualmente apropriadas. Da Holanda, onde residia desde 1921, trabalhando principalmente como contador e agente comercial, De Kom observou em particular os esforços de Louis Doedel, que desde o início de 1931 organizava os desempregados e negociava com a administração colonial no Suriname para implementar reformas trabalhistas e criar empregos. Em 28 de outubro de 1931, uma manifestação em massa da Surinaamsche Volksbond (Associação Popular Surinamesa, SVB) de Doedel saiu do controle e terminou em uma revolta por comida. Forças policiais foram chamadas para restaurar a ordem. Seus confrontos com a multidão enfurecida resultaram em um morto, dois feridos e 56 prisões. Para De Kom, o “Outubro Vermelho” foi um extremo trágico da opressão colonial, mas também uma manifestação promissora de resistência popular.
Além dos relatos alarmantes que recebia sobre os efeitos da crise econômica em seu país natal, as redes de De Kom também serviram para inspirar ações. Na verdade, De Kom colaborou com três grupos de pessoas que compartilhavam de suas ideias. Em primeiro lugar, ele foi influenciado por estudantes indonésios na Holanda, que se preparavam para a libertação de seu país do domínio colonial holandês. Sua principal associação era a nacionalista Perhimpoenan Indonesia, liderada na década de 1920 por Mohammed Hatta, futuro primeiro-ministro da República independente da Indonésia. Além disso, De Kom cooperou estreitamente com organizações holandesas que promoviam (abertamente ou secretamente) ideais comunistas, como a Liga tegen Imperialisme en voor Koloniale Onafhankelijkheid (Liga contra o Imperialismo e em apoio à Independência Colonial) e o coletivo de trabalhadores e artistas Links Richten (Grupo de Esquerda). Naquela época, o Partido Comunista Holandês (CPH) era o único partido político na Holanda a demonstrar um interesse vivo e positivo pelas organizações nacionalistas nas colônias holandesas, e defendia com veemência a transferência da soberania para os povos colonizados. Por fim, De Kom, desde o início da década de 1930, mantinha contatos regulares com líderes da classe trabalhadora surinamesa, notadamente Louis Doedel e Theo de Sanders[15]. Marinheiros empregados pela Royal Dutch Steamboat Society atuavam como seus mensageiros, transmitindo mensagens e distribuindo escritos políticos. Os líderes sindicais surinameses locais, que em geral tendiam mais para os princípios do Sociaal Democratische Arbeiders Partij (Partido Social-Democrata dos Trabalhadores, SDAP)[16] acolheram o retorno de De Kom ao Suriname em 1933. As conexões interligadas de De Kom o convenceram de que os afro-surinameses, hindustânicos e javaneses das classes mais baixas eram todos proletários traídos pelas falsas promessas de trabalho livre e precisavam de uma organização que pudesse enfrentar as dificuldades e a opressão:
Queremos provar apenas uma coisa: compatriotas negros, vocês são escravos e continuarão vivendo na pobreza e na miséria enquanto não confiarem na sua própria unidade proletária. Não podemos ser salvos com um pedaço de terra isolado, uma pá ou um arado fornecidos a crédito. É necessário um grande plano de reconstrução nacional, um plano voltado para empreendimentos coletivos com equipamentos modernos na posse dos trabalhadores do Suriname. Teremos de construir nosso bem-estar com nossas próprias mãos. Esse plano exige um grande esforço de nós, surinameses. Mas, antes de tudo, os proletários de nosso país precisam alcançar uma consciência de classe militante; antes de tudo, precisamos nos livrar, juntamente com as antigas correntes de escravidão, da velha mentalidade escravocrata. (De Kom 2003:164).
No epílogo de Wij slaven van Suriname, intitulado “Reencontro e Adeus”, De Kom fez um breve relato de suas experiências de 1933 como líder ativista no Suriname (ver parágrafo seguinte), no qual incluiu referências à “camaradagem dos proletários e seu amor pela liberdade” e no qual reiterou seu desejo de transmitir aos seus compatriotas:
a esperança e a coragem contidas naquela palavra poderosa que aprendi no exterior: organização. Talvez eu consiga apagar as divisões que têm sido o ponto fraco dessas pessoas racializadas; não será totalmente impossível fazer com que negros e hindus, javaneses e indígenas compreendam que somente a solidariedade pode unir todos os filhos de Mama Sranan em sua luta por uma existência humana. (De Kom 2003:167, 169-70).
Não há qualquer menção a uma “tomada revolucionária do poder”, à “ditadura do proletariado” ou ao estabelecimento de uma “sociedade sem classes” em Wij slaven van Suriname. De Kom, em seu livro, também se abstém de fazer alusão a modelos socialistas existentes (por exemplo, o aplicado na então União Soviética) ou a cenários específicos para colocar seus ideais em prática. Além da tendência de De Kom de se concentrar na ação prática em vez de na correção terminológica ou no debate teórico, essa aparente falta de elaboração ideológica deve-se, em grande parte, à postura das autoridades holandesas. Eles obrigaram o autor a manter um perfil discreto e a se submeter ao regime político do período de entreguerras na Holanda, que condenava o comunismo e excluía os membros do Partido Comunista Holandês de cargos em órgãos governamentais. Em seu livro, De Kom afirma explicitamente que nunca foi nem é membro do Partido Comunista Holandês (De Kom 2003:189). Embora não haja evidências irrefutáveis sobre a veracidade da afirmação de De Kom, é seguro supor que sua mensagem serviu, em parte, para fins de construção de imagem.
Muitos estudiosos têm apontado que Wij slaven van Suriname foi alvo de censura, o que resultou em várias alterações no manuscrito original. Como o texto inicial se perdeu, é difícil investigar a autenticidade da obra publicada. No entanto, pré-publicações de fragmentos do livro sugerem a exclusão de várias linhas e parágrafos da versão final, como aquele sobre as perspectivas de libertação no Suriname quando “grandes e conscientes revolucionários” como Baron, Boni e Joli Coeur (conhecidos líderes guerrilheiros maroons) se levantassem mais uma vez. Na mesma passagem, proletários holandeses eram incentivados a valorizar “nossos lutadores pela liberdade” e a levar consigo imagens desses líderes, juntamente com o retrato de Lenin, durante suas manifestações no dia em que a grande liquidação do capitalismo iria ocorrer[17]. Fosse membro do Partido Comunista Holandês ou não, esse trecho indica que De Kom adotou, pelo menos em parte, a ideologia propagada na Holanda na década de 1930[18].
Costuma-se considerar que outra prova do radicalismo de De Kom é o texto de um panfleto – também não incluído em Wij slaven van Suriname – que circulou no Suriname no início de 1933, quando De Kom se encontrava lá. O programa divulgado nesse panfleto clamava por “libertação nacional, autodeterminação completa, independência constitucional, Suriname e Curaçao separados da Holanda já”, “extermínio dos privilégios dos imperialistas estrangeiros e nacionalização das concessões e plantações estrangeiras”, “liberdade ilimitada de organização e de imprensa para trabalhadores, pequenos agricultores, maroons e outros povos oprimidos”, “promoção da emancipação econômica, política e cultural das classes e raças oprimidas, e direitos iguais para homens e mulheres” e “uma organização de unidade para todos os trabalhadores e agricultores e colaboração com os movimentos holandeses, indonésios, soviéticos e internacionais” (Scholtens, 1986:79-80)[19]. Essas exigências abrangentes, também expostas em vários artigos da imprensa comunista,[20] provavelmente refletem a agenda política definitiva de De Kom. No entanto, dada a escassez de dados, devemos proceder com cautela neste ponto. É impossível ignorar ou desconsiderar as especulações que se misturam às informações ao lidar com este assunto específico[21].
A obsessão de De Kom pela reconstrução da sociedade surinamesa era, sem dúvida, de inspiração marxista, mas classificar o autor como um estudioso do marxismo ou um pensador marxista não faria justiça aos papéis essencialmente performáticos que ele assumiu como ativista e escritor. Basicamente, as ideias que ele defendia eram marcadas pela simplicidade. De Kom partia do princípio de que os fundamentos econômicos da ordem social condicionavam as sociedades europeias, asiáticas e do Novo Mundo. Ele considerava a doutrina derivada desse princípio um “readymade” filosófico, que adotou avidamente como sua bússola ideológica e código de conduta política. Mas as convicções de classe de De Kom estavam tão enraizadas na teoria marxista quanto nas experiências da vida cotidiana e nos encontros com as pessoas. Seus apelos apaixonados para acabar com as desigualdades e injustiças e suas tentativas empenhadas de melhorar as condições de vida dos desfavorecidos e dos desamparados revelavam um marxismo sensível e aplicado intuitivamente, desligado do discurso político e da análise acadêmica. Alguns de seus contemporâneos observaram, com razão, que De Kom travava a luta de classes com o coração, em vez de com conceitos elaborados ou dogmas rígidos em mente[22]. Sem dúvida, o empenho de De Kom não visava a reflexão, o aprofundamento e o refinamento dos ideais marxistas, mas sim a ações práticas voltadas para o igualitarismo e a justiça social[23].
FORTE ENVOLVIMENTO PESSOAL
A natureza híbrida de Wij slaven van Suriname, que apresenta traços tanto de uma obra acadêmica quanto de um tratado político, é ainda mais confirmada pela inclusão, por parte de De Kom, de fragmentos autobiográficos ao longo do texto. Seguindo a convenção socialista de subordinar o pessoal ao coletivo, De Kom não se alonga sobre suas experiências particulares. No entanto, a incorporação de interlúdios pessoais permite efetivamente que o leitor se identifique com o destino dos surinameses de classe baixa. Além disso, essas anedotas apoiam e esclarecem as explicações gerais mais objetivas apresentadas pelo autor.
As deficiências nos currículos escolares, especialmente a falta de atenção séria à história do Suriname, inspiraram De Kom a registrar algumas de suas memórias mais pessoais. Uma citação exemplar: “Melhor do que nos livros de história dos brancos, os maus-tratos sofridos por nossos pais estão gravados em nossos próprios corações; nunca a agonia da escravidão me tocou tão intensamente quanto nos olhos da minha avó quando ela contava a nós, crianças, em frente à cabana em Paramaribo, as histórias dos velhos tempos” (De Kom 2003:46). Da mesma forma, De Kom relembra os amigos maroons que seu pai levou para casa quando voltou das minas de ouro para a capital. O filho, criado em uma sociedade que imitava os preconceitos da elite colonial, admite com vergonha que ele e seus colegas de escola falavam com desdém dos convidados de seu pai, considerando-se superiores àqueles cuja língua e modo de vida não conseguiam compreender. “Nosso desprezo era um dos elos mais fortes da corrente com a qual estávamos acorrentados ao sistema de produção ocidental. Somente quando a velha mentalidade escrava tiver desaparecido de nossos corações é que o surinamês alcançará a dignidade humana” (De Kom 2003:80)[24].
É o epílogo que descreve as breves experiências ativistas de De Kom no Suriname que se destaca como a parte mais intrigante da autobiografia em Wij slaven van Suriname. Embora muitos detalhes relativos aos acontecimentos de 1933 permaneçam obscuros até hoje, o enredo principal é claro[25]. No final de dezembro de 1932, De Kom viajou para o Suriname, pela primeira vez desde que se mudara para a Holanda. De acordo com seu relato em Wij slaven van Suriname, o principal motivo de seu retorno foi o desejo de visitar sua mãe, que estava gravemente doente. Tragicamente, ela faleceu antes que ele chegasse ao destino. Mas, aparentemente, De Kom pretendia emigrar de vez, já que sua esposa, que era holandesa, e seus filhos, nascidos na Holanda, o acompanhavam, assim como muitas caixas de móveis. Desde o momento em que seus pés tocaram o solo surinamês, De Kom foi seguido por policiais. As autoridades, alertadas sobre sua reputação de “agitador comunista”, temiam que ele aproveitasse a oportunidade para incitar as massas e perturbar o status quo político.
Como De Kom foi impedido de organizar reuniões, ele criou um “escritório de assessoria e informação” no quintal da casa dos pais. Ele registrava os nomes e endereços das pessoas que o visitavam e anotava suas reclamações. Centenas de pessoas se dirigiram à residência temporária de De Kom, principalmente aquelas de ascendência javanesa e hindustani que viviam nos distritos rurais. Elas foram atraídas pela perspectiva de De Kom lhes proporcionar uma passagem gratuita para Java ou para a Índia. Devido às deploráveis condições materiais e sociais em que viviam e à sua aparente falta de instrução, atribuíram poderes míticos a De Kom, considerando-o uma figura real, um messias, uma encarnação de Gusti Amat (um príncipe lendário do século XIX que havia sido expulso de Java para Ambon e que, segundo se acreditava, teria vindo ao Suriname para salvar seu povo) e um discípulo e representante de Gandhi. Ainda há controvérsia sobre se De Kom deliberadamente enganou seus seguidores, abusando de seu carisma e criando expectativas que não poderia cumprir. Algumas fontes importantes, no entanto, afirmam que os oponentes de De Kom espalharam boatos falsos para desacreditá-lo e superá-lo. Estão convencidos de que esses adversários alegaram falsamente que De Kom arrecadava dinheiro dos imigrantes, supostamente como pagamento antecipado pelo seu repatriamento, mas, na verdade, para encher os próprios bolsos. Infelizmente, a escassez de testemunhos factuais também impede conclusões significativas neste caso (Breunissen, 2001:17-21, 170-71, Verheij & Van Westerloo, 1984:35, Wicart 1990:86)[26].
Em 1º de fevereiro de 1933, as autoridades proibiram De Kom de organizar uma reunião perto da casa de seus pais. Essa recusa, que ele considerou injusta, tendo em conta as necessidades do povo e a oportunidade que ele havia criado para atuar como seu defensor, levou De Kom a dirigir-se ao governador para protestar. Uma grande multidão o seguiu. Naquele dia, o governador não pôde recebê-lo, oficialmente por motivos médicos. Assim, De Kom se separou de seus apoiadores e aceitou a oferta de ir de carro até a delegacia. Disseram-lhe que lá, no lugar do governador, ele poderia se encontrar com o procurador-geral. No entanto, no local da reunião, agentes da polícia o prenderam. Seus seguidores, que entretanto haviam localizado De Kom e se reunido em frente à delegacia, foram dispersados violentamente.
Nos dias seguintes, a cidade de Paramaribo permaneceu agitada. Houve motins e apelos para a libertação de De Kom, que foram rejeitados pelo procurador-geral com o argumento de que haviam sido encontradas provas de que De Kom tinha planos sérios de derrubar o governo. Apesar de sua garantia de que De Kom permaneceria na prisão e mesmo com a proibição de reuniões públicas, em 4 de fevereiro o boato de que De Kom seria libertado em fevereiro se espalhou rapidamente e causou grande agitação. Naquele dia, na expectativa de sua libertação, uma enorme multidão, incluindo muitos javaneses, reuniu-se na praça principal da cidade, em frente ao palácio do governador e próximo ao Forte Zeelandia, onde De Kom estava detido. Mas, em vez de serem autorizados a se reunir com seu líder, a polícia dispersou a multidão na praça, após o que as pessoas seguiram para o escritório do procurador-geral. E avançaram à força, tentando romper o cordão policial que guardava o prédio. A multidão enfurecida, determinada a exigir o retorno de seu líder e recusando-se a obedecer às ordens de recuar, ameaçou e ridicularizou os policiais, que, em determinado momento, começaram a atirar contra a multidão. No confronto que se seguiu, dois manifestantes foram mortos e vinte e três ficaram feridos. De Kom foi expulso da colônia em 10 de maio, após três meses e meio de detenção, sem julgamento. Posteriormente, as autoridades reconheceram que não havia provas suficientes para condenar De Kom.
A estadia de quatro meses e meio de De Kom no Suriname, durante a qual ele atuou efetivamente como ativista por apenas um mês[27], levou as autoridades a promulgar leis antirrevolucionárias, a reforçar o armamento das forças policiais e a criar uma guarda civil. Essas decisões praticamente silenciaram as ações dos líderes sindicais surinameses na década seguinte. De volta à Holanda, De Kom concluiu Wij slaven van Suriname, encerrando sua obra com uma ansiedade serena: “Sranan, minha pátria. Espero um dia te ver novamente. No dia em que toda a tristeza for removida” (De Kom 2003:179)[28]. De Kom, no entanto, nunca mais voltaria a Sranan.
Com sua confiança no espírito do progresso inabalável, De Kom continuou seu trabalho ativista na Holanda, mas, como exilado político, enfrentava grandes dificuldades para ganhar a vida. Basicamente, estava desempregado e dependia da assistência social. Empregos temporários e de baixo nível geravam alguma renda irregular. Durante a Segunda Guerra Mundial, De Kom juntou-se ao ramo comunista do movimento de resistência holandês contra o ocupante nazista, permanecendo fiel aos seus ideais e firme em seu compromisso com as pessoas oprimidas, fossem colonizados do Suriname ou os colonizadores holandeses. Traído em 1944, De Kom foi preso pelos nazistas e deportado para a Alemanha. No início de 1945, após ter sofrido graves privações em vários campos de concentração, De Kom morreu no campo de Sandbostel, um anexo do campo de concentração de Neuengamme.
Em 1933, De Kom teria retornado ao Suriname em uma missão do Partido Comunista Holandês? É possível, dadas suas conexões políticas e seus ideais. No entanto, não há provas concretas que sustentem essa suposição. De Kom desejava provocar uma revolução em seu país natal? Obviamente, ele desejava melhorar as condições de vida das classes mais baixas e estimular seu espírito de luta e motivação para resistir ao governo colonial. No entanto, há testemunhos confiáveis de que, em 1933, De Kom considerou que o Suriname não estava preparado para uma revolução e, por princípio, rejeitou o uso da violência. Isso indica que uma tomada imediata do poder no Suriname não fazia parte de seu programa (De Kom 2003:168-70, 173-75). Além disso, por razões práticas, De Kom preferia agir, tanto quanto possível, de acordo com as regras do jogo estabelecidas pelas autoridades coloniais. É por isso que se limitou a métodos de ação não violentos, como mobilização em massa e propaganda. Muito provavelmente, as atividades de De Kom em 1933 destinavam-se a ser a fase inicial de um percurso voltado para a criação de uma organização trabalhista ampla e sólida que conferisse aos trabalhadores surinameses um poder político substancial.
Por que tantos javaneses e, em menor número, hindustânicos se sentiram atraídos pelos ideais de De Kom? Várias explicações foram apresentadas. O fato de ambos os grupos terem sido amplamente negligenciados pelo governo colonial em comparação com o grupo afro-surinamês e de nutrirem profundos sentimentos de nostalgia pela terra natal parece ter tornado esses trabalhadores mais receptivos aos atos e discursos daquele que consideravam um líder messiânico. Além disso, os afro-surinameses já possuíam suas organizações de trabalhadores, mas estavam desanimados com os resultados escassos de seus líderes, particularmente após a revolta da fome de 1931. Ademais, presumivelmente tinham suas reservas em relação a De Kom devido ao seu radicalismo e à aura de autoridade e pedantismo que aparentemente o cercava. Por fim, o foco de De Kom nos trabalhadores javaneses e hindustânicos parece ter sido também uma questão de tática e divisão de tarefas. Ao deixar os proletários afro-surinameses a cargo de líderes como Doedel, De Kom, ao se dirigir aos principais grupos asiáticos, podia reforçar sua credibilidade como portador de uma mensagem etnicamente neutra e centrada na classe. O fato de ele estar acostumado a se relacionar com pessoas de ascendência indonésia provavelmente serviu como um trunfo.
Em particular, o apoio ativo dos javaneses a De Kom alarmou as autoridades. Ao longo das décadas de 1930 e 1940, o receio de uma repetição dos distúrbios de 1933 – tendo em conta o interesse que muitos javaneses demonstravam pelas atividades do movimento nacionalista na Indonésia, o carisma do líder nacionalista Sukarno e a Proclamação da Independência da Indonésia em 1945 – manteve a administração colonial em alerta e a motivou a permitir que os serviços de inteligência observassem de perto os movimentos da população javanesa. Ao contrário dos acontecimentos no Caribe anglófono, onde a agitação trabalhista atingiu seu auge no final da década de 1930, no Suriname, após a expulsão de De Kom, a inquietação social e política foi contida com sucesso peo governo colonial, que aderiu estritamente às leis antirrevolucionárias (comumente chamadas de “decretos de censura”) e à forma autoritária estabelecida de lidar com a oposição indesejável.[29]
COMPARANDO DE KOM COM WILLIAMS E JAMES
Wij slaven van Suriname, de De Kom, Capitalismo e escravidão[30], de Eric Williams, e Os jacobinos negros, de C.L.R. James[31], apresentam semelhanças evidentes em termos de objetivo, abordagem e argumentação[32]. Seus pontos em comum podem ser classificados sob os títulos “emancipação”, “consciência racial e de classe”, “política de identidade” e “nacionalismo”. As obras centram-se nos povos caribenhos e na sua luta pela libertação, autoestima e dignidade. Quanto à abordagem e análise, os autores recorrem a métodos acadêmicos e técnicas literárias, apresentando uma linha de raciocínio convincente que visa a criação de uma nova perspectiva sobre a história caribenha. Assumindo uma posição decisiva em questões ideológicas, essas obras refletem o espírito da Europa do período entre guerras, que deu origem ao fascismo e ao comunismo como sistemas políticos opostos que aspiravam, sem concessões, à hegemonia mundial.
Simultaneamente, as três obras em questão diferem em termos de ambição e alcance. Além das divergências em relação ao talento e às aspirações, os autores também possuem formações acadêmicas distintas. Eric Williams e C.L.R. James figuravam entre os alunos mais talentosos de sua geração na Royal Queen’s Royal College, em Porto de Espanha, Trinidad. Seu desempenho brilhante na Queen’s resultou na concessão de uma bolsa de estudos da Ilha a Williams para prosseguir seus estudos universitários no Reino Unido. Após obter um doutorado na Universidade de Oxford, Williams embarcaria em uma carreira extraordinária, alcançando com sucesso objetivos acadêmicos e políticos. Ele construiu uma sólida reputação como historiador caribenho e serviria por dezenove anos como primeiro-ministro de Trinidad e Tobago. James decidiu, com determinação, não frequentar a universidade, mas levar a vida de um artista independente e revolucionário. Notadamente como escritor e jornalista, ele demonstrou um zelo por questões contemporâneas relacionadas à África e ao Caribe, examinando criticamente os fundamentos teóricos e as implicações práticas da autogovernança, da independência, do pan-africanismo, do marxismo e do trotskismo. O legado intelectual de James é abundante, abrangendo desde ficção em prosa e crítica literária até escritos sobre política, história e esportes (críquete).
Em comparação com essas figuras excepcionalmente talentosas e enérgicas, as credenciais de De Kom revelam-se modestas. Após concluir os estudos na Escola Católica Romana Paulus, em Paramaribo – um tipo de escola que oferecia o ensino médio básico, na época o nível mais alto de educação que se podia alcançar na colônia –, De Kom fez cursos particulares de contabilidade e gestão financeira. Na Holanda, em consequência de sua origem humilde, das restrições financeiras decorrentes disso e da indisponibilidade de bolsas de estudo, ele não pôde continuar seus estudos de forma regular. Em vez disso, como autodidata, treinou-se para ler livros acadêmicos, discutir questões políticas e desenvolver uma forma de pensar marcada pela profundidade e autenticidade.
Além da ausência de experiências e qualificações formais no ensino superior, o que o obrigou a aprender as coisas principalmente por conta própria, De Kom teve a infelicidade de ser criado em uma colônia e, mais tarde, viver na metrópole de um império que não desempenhava um papel de destaque na política mundial e era conhecido por seu estilo de vida bastante introvertido e complacente. Isso influenciou os currículos oferecidos aos estudantes holandeses, bem como a formação intelectual e o nível de ambição que a sociedade exigia de seus cidadãos. A formação no sistema educacional britânico, que dedicava igual atenção à aquisição de conhecimento e ao desenvolvimento de habilidades analíticas, criativas e oratórias, juntamente com a ênfase dada ao domínio da língua inglesa e ao cultivo de uma mentalidade voltada para a competição e o fair play (jogo limpo), contribuiu para uma base intelectual mais abrangente e uma orientação mais internacional, em benefício daqueles que estavam ansiosos por explorar seus talentos. Sem dúvida, Williams e James estavam entre aqueles que, em seu trabalho, tiraram o máximo proveito de sua educação. Nesse aspecto, De Kom ficou para trás.
De que tratam os três livros desses autores? Em Capitalismo e escravidão, Williams explica com veemência que o comércio de escravos e a “escravidão negra” foram os elementos centrais do capitalismo comercial do século XVIII, que forneceu o capital para financiar a Revolução Industrial. Além disso, o autor contesta a visão de que o fim do comércio de escravos e da escravidão foi principalmente o triunfo do humanitarismo britânico, que, segundo ele, foi “um dos maiores movimentos de propaganda de todos os tempos” (Williams 1994:178). Williams argumenta que, ao contrário, a abolição de ambas as instituições foi uma consequência do desenvolvimento do capitalismo industrial do século XIX, que levou ao surgimento de novas classes manufatureiras e industriais na Grã-Bretanha. Essas classes consideravam a manutenção do monopólio das Índias Ocidentais e da escravidão incompatível com seus interesses econômicos; isso impediria a obtenção de lucros. Apesar da convicção de Williams de que não existe uma linha de demarcação rígida entre o julgamento histórico e o político e de que os papéis do historiador e do político não podem ser adequadamente separados, Capitalismo e escravidão é uma obra acadêmica, mais precisamente um estudo econômico que vem sendo objeto de intenso debate acadêmico há sessenta e cinco anos. Como tal, é uma contribuição marcante para os estudos caribenhos.[33]
Em Os jacobinos negros, James relata de forma eloquente a complexa história da Revolução Haitiana, com especial destaque para o papel desempenhado por seu principal líder, Toussaint L’Ouverture. Seu livro é uma narrativa comovente de raro refinamento literário, firmemente fundamentada nas fontes primárias disponíveis. Apropriando-se de um paradigma marxista, James elucida a natureza da sociedade caribenha, apontando para a predominância de raça e classe[34] e retratando os escravos como “mais próximos de um proletariado moderno do que qualquer grupo de trabalhadores existente na época” (James 1989:86). Ao esclarecer a contribuição da escravidão para o desenvolvimento do mundo moderno, James lançou as bases para a tese de Williams (James 1989:51-54, Williams 1994:268).
Uma questão teórica que James aborda em Os jacobinos negros é a relação entre as forças sociais e o impacto de personalidades de destaque, como L’Ouverture, na concretização de uma revolução. A questão de saber se foi a revolução que fez Toussaint ou se foi Toussaint que fez a revolução leva James a assumir uma posição intermediária, aderindo, no entanto, ao determinismo histórico: “Grandes homens fazem a história, mas apenas a história que lhes é possível fazer. Sua liberdade de ação é limitada pelas necessidades de seu ambiente” (James 1989:ix, 91). No fim das contas, indica James, a ação humana é determinada pelo contexto material[35].
Em Os jacobinos negros, o papel das massas é outro tema que recebe ampla atenção. Segundo James, as massas francesas foram um fator determinante para o sucesso da Revolução Haitiana. Na época dos jacobinos, elas haviam persuadido a Convenção Nacional a abolir a escravidão em todas as colônias francesas e a declarar todos os homens cidadãos franceses com direitos iguais. Esse decreto, aprovado no início de 1794, impeliu L’Ouverture a empreender uma de suas campanhas militares mais vitoriosas, que acabaria por salvar a revolução (James 1989:137-44). Para James, a interligação entre as revoluções francesa e de São Domingo refletia predominantemente a solidariedade proletária internacional. As massas de Paris haviam demonstrado triunfalmente seu apoio à luta de libertação de seus compatriotas ultramarinos. esse “internacionalismo instintivo” da classe trabalhadora, na opinião de James, tinha de ser o alicerce da “revolução permanente”, um dos credos do trotskismo (Benn 2004:156-60).
Em Os jacobinos negros, a Revolução Haitiana serve de exemplo para as comunidades à beira da descolonização. Segundo o autor, a capacidade dos escravos de São Domingo de derrotar as nações europeias mais poderosas na virada do século XVIII, de transformar a sociedade e criar um Estado negro independente demonstrou a capacidade do povo africano de se autogovernar. James escreveu Os jacobinos negros tendo a África em mente, como resultado de sua colaboração no final da década de 1930 com George Padmore, o então principal comunista negro e pan-africanista. Ambos participaram ativamente da gestão do International African Service Bureau (IASB), que apoiava os direitos democráticos e as liberdades do povo africano. Em 1963, James acrescentaria um apêndice a Os jacobinos negros, estabelecendo uma ligação entre Toussaint L’Ouverture e Fidel Castro e reconhecendo a importância de relacionar a história do Caribe com os desenvolvimentos dentro da própria região (James 1989:391-418).
Wij slaven van Suriname não é uma obra acadêmica, embora apresente algumas características de um trabalho histórico, como o uso de fontes primárias e secundárias e a adoção de uma perspectiva surinamesa. No entanto, De Kom nunca teve a intenção de se dirigir ao meio acadêmico, nem teve como principal motivação contribuir para o acervo existente de literatura acadêmica sobre o Suriname. Seria, portanto, irrelevante colocar Wij slaven of Suriname na mesma categoria que Capitalismo e escravidão, que foi a elaboração de uma tese de doutorado defendida em 1938 e foi explicitamente escrita para desafiar e impressionar um público acadêmico. Graças aos esforços dos historiadores, Wij slaven of Suriname continua a ser incluído nos debates acadêmicos, embora o próprio autor nunca tenha tido essas intenções. Isso continua sendo uma grande fonte de confusão em relação ao livro de De Kom.
Da mesma forma, não se pode classificar satisfatoriamente Wij slaven van Suriname como uma obra de arte e revolução se a compararmos com Os jacobinos negros. É certo que o livro de De Kom é escrito em um estilo extremamente preciso e comovente e aborda uma série de questões ideológicas significativas. Além disso, o autor provavelmente[36] teria concordado com James em várias questões, como suas conclusões sobre raça e classe, o papel histórico dos líderes revolucionários e a solidariedade proletária internacional (exceto pela abordagem trotskista, à qual ele provavelmente teria se oposto). Desses pontos de vista, Wij slaven van Suriname é mais semelhante a Os jacobinos negros do que a Capitalismo e escravidão. No entanto, De Kom, em comparação com James, não é tão hábil em lidar com a teoria. De fato, suas referências a conceitos e princípios (principalmente marxistas) são escassas e suas reflexões correspondentes carecem de profundidade e sofisticação (Scholtens 1986:81)[37].
Por fim, devemos levar em conta que Capitalismo e escravidão e Os jacobinos negros não demonstram o forte envolvimento pessoal presente em Wij slaven van Suriname. Tanto James quanto Williams, em seus livros, evitam deixar que experiências particulares interfiram no tema que examinam. Ao contrário de De Kom, eles excluem conscientemente referências à autobiografia e à memória pessoal, limitando-se, tanto quanto possível, a fatos históricos e à argumentação acadêmica. Obviamente, para Williams, isso fazia parte integrante dos padrões acadêmicos que ele, como aluno de doutorado, precisava cumprir. Muito provavelmente, James fez sua escolha por motivos tanto artísticos quanto ideológicos. Recorrendo com segurança a uma variedade de fontes históricas, pressupostos teóricos e estratégias literárias, ele evitou alusões a episódios e eventos que pudessem desviar a atenção da “grande narrativa” que desejava escrever.
O papel de acusador que De Kom assumiu em Wij slaven van Suriname, a adoção de uma perspectiva surinamesa, a crença na reconstrução da sociedade surinamesa e, sobretudo, a demonstração de um forte envolvimento pessoal conferem ao seu livro as características de um poderoso ensaio político. De Kom escreveu-o para inspirar, instruir e encorajar as pessoas a resistir ao colonialismo e a buscar a unidade nacional e a justiça social. Escrito de forma articulada e contendo muitas anedotas comoventes, o texto tinha como objetivo persuadir seus leitores a abraçar ideais iluministas e exortá-los a agir de maneira acordada[38]. No entanto, devido à repressão colonial persistente, Wij slaven van Suriname permaneceu na clandestinidade por um período considerável. No Suriname, seu conteúdo só era discutido dentro de um pequeno círculo de sindicalistas e nacionalistas[39].
Após várias edições clandestinas e a reedição oficial de 1971 de Wij slaven van Suriname, a humanidade da mensagem de De Kom e a integridade de suas ações foram recebidas com reações cada vez mais favoráveis. A redescoberta de seu livro, juntamente com a ampla divulgação da vida de engajamento e sacrifício do autor, despertou uma nova geração de estudantes surinameses e os encorajou a adotar visões de classe e a se dissociar da postura étnica dos partidos políticos estabelecidos. De Kom foi aclamado postumamente como um precursor do nacionalismo surinamês e amplamente adotado como símbolo da resistência anticolonial[40]. Consequentemente, Wij slaven van Suriname tornou-se fundamental para estimular o debate sobre independência e justiça social. Foram o recém-criado Volkspartij (Partido do Povo) e a Progressieve Arbeiders en Landbouwers Unie (União Progressista de Trabalhadores e Agricultores, PALU) – mais do que o Partij van de Nationalistische Republiek (Partido da República Nacionalista, PNR), que existia desde 1961 – que se consideravam os guardiões e porta-vozes do legado ideológico de De Kom. No entanto, tanto o Volkspartij quanto o PALU tiveram um desempenho decepcionante nas eleições parlamentares. Na década de 1970, eles não conseguiram obter um único assento na legislatura surinamesa.
Após o golpe militar de 1980, representantes de um grupo dissidente radical do Partido Popular, denominado Revolutionaire Volkspartij (Partido Popular Revolucionário, RVP), e delegados do PALU assumiram cargos de poder na administração surinamense. Foi por iniciativa deles que De Kom foi proclamado herói nacional pela liderança militar, que se tornava cada vez mais autoritária. Um destino trágico se abateu sobre De Kom: nunca antes sua herança havia sido promovida e cultivada publicamente com tanto vigor, mas as intenções de seus promotores eram radicalmente diferentes dos ideais do exemplo que tanto admiravam. Em busca de uma justificativa para seu golpe de Estado, a repressão armada subsequente, as violações dos direitos humanos e o “utopismo anti-apanjath” (Dew 1993:67)[41], os militares, paradoxalmente, recorreram a um defensor da resistência não violenta e a um opositor do controle totalitário.
A partir desses anos, mas também após a restauração da democracia parlamentar em 1987, a imagem de De Kom foi imortalizada em estátuas, seu nome associado a ruas e praças, e sua vida e obra divulgadas em artigos, livros e documentários, tanto no Suriname quanto na Holanda. Até hoje, o Nationale Democratische Partij (Partido Democrático Nacional, NDP), sucessor civil de um movimento de massa liderado por militares existente antes de 1987 e presidido pelo ex-comandante do exército surinamês, Desi Bouterse, sempre se declarou herdeiro das ideias de De Kom, notadamente aquelas sobre o nacionalismo, que, segundo o NDP, são de natureza anticolonial e antiétnica. A versão anticolonial e multiétnica desse nacionalismo conta com apoiadores, em particular, nas fileiras do Nieuw Front voor Democratie en Ontwikkeling (Nova Frente para a Democracia e o Desenvolvimento, NWFO), uma grande coalizão de “antigos” partidos políticos proeminentes antes de 1980. Após 1987, esses partidos governaram juntos, exceto por um interlúdio do NDP entre 1996 e 2000. Nos círculos da Frente, De Kom é muito respeitado, mas sem dúvida carece do status de herói de que desfruta nas fileiras do NDP (Blanksma 2008:129-34).
LER DE FORMA CONSCIENTE E CRÍTICA
De acordo com David Scott, um número considerável de obras que propagam o anticolonialismo apresenta uma forma narrativa distinta: a do romance. São narrativas de superação e reivindicação. Elas não apenas enfatizam a glória da salvação e da redenção, como também traçam um horizonte utópico para o qual se imagina que a história emancipacionista esteja caminhando. Ao longo dos anos, a forma narrativa do romance[42] parece ter perdido cada vez mais significado. É inegável que, em muitas ex-colônias, a configuração sociopolítica e socioeconômica contemporânea está em total desacordo com as noções e expectativas apresentadas pelos intelectuais anticolonialistas nas décadas anteriores.
Scott (2004:209-10) afirma que, com o advento do “pós-Bandung”[43], a percepção das pessoas sobre o tempo e suas perspectivas mudou significativamente. Não há mais terreno estável para considerar o presente um “mero momento transitório em um impulso garantido de um passado ferido para um futuro de salvação”. À medida que as utopias anticoloniais em muitas sociedades se transformaram em pesadelos pós-coloniais, “o mito do romance”, que celebra “o impulso épico de eventos históricos sucessivos, o movimento metafísico das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade, do desespero para o triunfo” (Scott 2004:70, 166), tornou-se inequivocamente obsoleto. Para Scott, essa constatação suscita uma questão importante: como podemos lidar de forma significativa com obras anticoloniais cujas premissas e previsões não se concretizaram?
Uma leitura atenta da edição de 1963 de C.L.R. James de Os jacobinos negros leva Scott a distinguir uma segunda forma narrativa: a da tragédia. Argumenta ele que essa narrativa permite aos estudiosos refletir escrupulosamente sobre a subjetividade em momentos de crise histórica, por exemplo, a posição ambivalente de Toussaint L'Ouverture em relação à França durante uma fase crucial da revolução haitiana. Seu principal argumento é que, para Toussaint, que denunciou a escravidão, bem como uma São Domingos sem a França, a modernidade era uma condição trágica, não uma escolha. Era uma realidade à qual ele estava condenado e para a qual só havia alternativas trágicas. Na opinião de Scott, Toussaint, cuja hesitação e irresolução são consideradas como tendo eventualmente impulsionado seu exílio e morte prematura na França, personifica a tragédia da modernidade colonial, isto é, o paradoxo, o enigma e a ilusão do iluminismo colonial.
Scott postula que endossar uma visão trágica da liberdade significa questionar o desenrolar teleológico da história em direção a um fim determinado, mas também uma história governada por um agente soberano e oniscientemente racional.
Para a tragédia, a história não nos leva a lugar nenhum em particular. E se o passado é uma ferida, é uma que talvez não cicatrize; não pode ser evitada ou superada completamente. Não desaparece por um ato de heroísmo. Nem existe um cálculo racional que garanta a superação das contingências que inevitavelmente surgem no caminho do herói trágico. A história, em suma, não é uma série de resoluções perfeitas; o futuro não surge triunfalmente da turbulência perversa do passado. (Scott 2004:166).
Alternativamente, a forma narrativa da tragédia honra o contingente, o paradoxal, o inesperado, o ilógico e o inflexível nos assuntos humanos. Ler histórias anticoloniais como tragédias do iluminismo colonial e como lutas da humanidade com as contingências que dificultam a organização social e a criação da nação oferece elementos de uma visão crítica do passado colonial, bem como do presente pós-colonial. A tragédia implica o reconhecimento das limitações da mente humana e da incompletude da ação humana, mas também a existência de um legado que requer renegociação e reajuste contínuos para moldar um futuro viável.
Ao relacionarmos Wij slaven van Suriname às formas narrativas do romance e da tragédia, podemos começar afirmando que a obra de De Kom apresenta características de uma história de vindicação, na medida em que aborda as realizações e capacidades de pessoas negligenciadas e tratadas como inferiores por um período considerável. Ao inverter as convenções intelectuais, o autor traz esses indivíduos para o primeiro plano da história e incorpora seus pensamentos, aspirações e ações na estrutura de sua longa luta por emancipação e justiça. De Kom promove uma reconstrução da sociedade surinamesa nos moldes da consciência de classe, da unidade proletária e da solidariedade humana, sugerindo cautelosamente que a redenção de seu povo seja a parada final na estrada de mão única para a liberdade.
Contudo, apesar dessa confiança em um futuro predestinado, o tom e o enredo de Wij slaven van Suriname não são nem vitoriosos nem triunfantes. O autor não anuncia explicitamente o fim do capitalismo ou o desaparecimento inescapável do colonialismo. Tampouco o leitor pode – como seria de se esperar em uma obra que exibe a forma narrativa do romance – encontrar previsões ou antecipações correspondentes apresentadas na forma de um mantra preponderante, uma “lei de ferro” ou um sinal alternativo de inevitabilidade histórica. Ao mesmo tempo, não se pode negar que De Kom ansiava pela dissolução do sistema mundial hegemônico da época. Ele presumia que isso abriria caminho para a “era da liberdade”. Mas deduzimos isso particularmente de fontes suplementares, não tanto de Wij slaven van Suriname em si. Em suma, podemos inferir que a obra seminal de De Kom expõe traços da forma narrativa do romance, mas somente quando relacionamos suas ideias centrais a evidências documentais complementares.
Assim como Os jacobinos negros, Wij slaven van Suriname também contém elementos da narrativa trágica. Em geral, isso se refere à triste e dramática história do povo surinamês, conforme delineada pelo autor. Porém, mais especificamente, a tragédia controlou a vida pessoal de De Kom. Se nos concentrarmos em sua carreira ativista, o epílogo de Wij slaven van Suriname é bastante revelador. Ele acentua o fracasso de De Kom em lançar as bases de uma organização trabalhista poderosa no Suriname e em forçar os holandeses a tomar iniciativas visando sua retirada da colônia. Nesta história sóbria de infortúnio e angústia, as limitações que De Kom teve que enfrentar são destacadas. O parágrafo final, em particular, comove o leitor, pois ele, ao contrário do autor na época da escrita, sabe que o ardente desejo de De Kom de retornar ao seu país natal foi em vão. Ele nunca teria uma segunda chance de visitar o Suriname e participar da remodelação de sua sociedade.
No âmbito das experiências migratórias – não uma parte inerente de Wij slaven van Suriname, mas uma importante camada biográfica subjacente – observamos que o contingente e o inesperado entraram definitivamente na vida de De Kom após sua decisão de se mudar para a Holanda em 1920. Muito provavelmente, ele queria expandir seus horizontes intelectuais e elevar seu padrão de vida. Sua chegada à Holanda marcou o início de uma estadia onerosa e, por vezes, francamente confusa.[44] Antes da Segunda Guerra Mundial, havia poucos surinameses de origem humilde residindo na Holanda. Para atuar como ativista político e ganhar a vida, De Kom precisou aceitar trabalhos como escriturário, contador e agente comercial. Após sua expulsão do Suriname, ele teve que se proteger cada vez mais do ataque do preconceito político e racial, e ficou sem meios regulares de subsistência. Sua estadia no exterior tomou outro rumo significativo durante a ocupação nazista da Holanda, quando ele resolveu se juntar ao movimento de resistência holandês contra o opressor alemão. Notavelmente, essa decisão selaria seu trágico destino.[45]
Se destacarmos o tema da modernidade, temos que reconhecer que, para De Kom, a modernidade era uma condição (como o era para a maioria de seus contemporâneos) e uma escolha (ele abraçou ideais representados por filósofos inspirados pelo Iluminismo, como Marx e Engels). Em Wij slaven van Suriname, a tragédia do Iluminismo colonial se manifesta principalmente no compromisso de De Kom com a lealdade de classe e em sua subestimação do impacto das clivagens étnicas nas relações de poder. Essa postura, no entanto, não caracterizou apenas De Kom, mas a esquerda caribenha pré-independência em geral (Mars 2003:68). Há certa ironia na associação de De Kom com esse movimento. Principalmente devido à falta de elaborações datadas sobre crenças básicas, Wij slaven van Suriname, assim como Os jacobinos negros, continua tão cativante, atraente e instigante hoje quanto deve ter sido há setenta e cinco anos.
CONCLUSÃO
Wij slaven van Suriname é uma obra imaginativa e persuasiva sobre resistência e um verdadeiro exemplo de "the empire writes back". De Kom a escreveu com dois objetivos em mente: denunciar o colonialismo holandês usando fontes históricas e experiências pessoais como referências e despertar seus compatriotas para iniciar a descolonização e a construção da nação. Ele desejava impressionar seu público metropolitano com os erros impostos pelas autoridades coloniais no Suriname e os efeitos prolongados de seu domínio sobre a predisposição mental dos colonizados. Aos seus contemporâneos surinameses, particularmente aos seus associados políticos, ele queria transmitir uma mensagem de esperança e solidariedade e conceder as ferramentas ideológicas para estabelecer uma nova sociedade.
De Kom era um nacionalista no sentido de que defendia a independência política e a autossuficiência econômica do Suriname. Ao mesmo tempo, era um internacionalista, favorecendo a lealdade de classe, a solidariedade proletária e o esmagamento do imperialismo em todos os estados e nações. Antes de De Kom, nem a opção nacionalista nem a internacionalista haviam sido tratadas seriamente por nenhum autor, ativista ou político surinamês. Consequentemente, De Kom deve ser associado à fase formativa da descolonização do Suriname. Em seu livro, ele conecta a contestação do modelo colonial existente à prudente abertura de caminhos pós-coloniais.
Ao comparar Wij slaven van Suriname com Capitalismo e escravidão e Os jacobinos negros, demonstra-se, em particular, a singularidade do contundente ensaio político de De Kom. Como escritor sobre história caribenha, De Kom é simplesmente superado por Eric Williams e, como revolucionário e homem de letras, não se compara a C.L.R. James. No entanto, essas qualificações desconsideram com muita facilidade as intenções do autor e obscurecem injustamente a complexidade e a versatilidade desta obra. É a combinação do papel de acusador adotado por De Kom, o emprego de uma perspectiva surinamesa, a crença em uma reconstrução da sociedade surinamesa e a demonstração de um forte engajamento pessoal que diferencia Wij slaven van Suriname dos clássicos produzidos por Williams e James. Essas características conferem ao livro sua inegável importância para os estudos surinameses e caribenhos.
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Peter Meel
Department of History
Leiden University
2300 RA Leiden, the Netherlands
<P.J.J.Meel@hum.leidenuniv.nl>
[1] Versões anteriores deste texto foram apresentadas na 40ª conferência da Associação de Historiadores do Caribe (ACH) em Paramaribo, Suriname, de 11 a 15 de maio de 2008, e na 6ª Conferência Caribbean Reasonings em Kingston, Jamaica, de 11 a 13 de junho de 2008. Sou grato a Juanita de Barros, Maurits Hassankhan, Gert Oostindie e Rosemarijn Hoefte por seus comentários úteis sobre meu artigo para a ACH. Além disso, beneficiei-me das críticas de três revisores anônimos e do generoso apoio de Alice Boots e Rob Woortman, que, gentilmente, me ofereceram a oportunidade de examinar a versão pré-final de sua biografia de Anton de Kom, que será publicada até o final de 2009.
[2] As autoridades holandesas rejeitaram o livro por motivos ideológicos e consideraram sua desaprovação ainda mais justificada quando, em 1935, foi publicada em Moscou uma tradução alemã da obra.
[3] Oostindie 1990:16-18 discute a controvérsia entre Van Lier e Hira.
[4] Defendendo esse ponto de vista, Van Mulier (2008) apresenta De Kom como um modelo a ser seguido pelos jovens surinameses.
[5] Devido principalmente às diferenças linguísticas, os estudos sobre a história intelectual do Caribe frequentemente ignoram autores ligados ao Caribe de língua holandesa. Veja-se, por exemplo, Benn 2004, Bolland 2004 e Torres-Saillant 2006, embora Torres-Saillant dedique uma atenção esporádica e superficial à literatura do Caribe holandês, incluindo a obra Wij slaven van
Suriname, de De Kom.
[6] Essas linhas levaram Oostindie & Hoefte (1999:612) a definir com precisão Wij slaven van Suriname como uma “acusação contundente e articulada contra o colonialismo e o capitalismo holandeses”.
[7] Mama Sranan é uma expressão surinamesa em sranan tongo – a língua franca do Suriname. O termo pode ser traduzido literalmente como "Mãe Suriname”. (Nota do tradutor do artigo).
[8] Para seções criativas, mas, em última análise, fictícias, consulte De Kom 2003:31-32, 39-40, 69-70, 163-164.
[9] Literalmente significa “Terra do homem livre”, um distrito histórico e um dos primeiros bairros populares destinado a pessoas de cor livres em Paramaribo.
[10] Os povos indígenas que viviam nas zonas costeiras do Suriname e que foram escravizados no início da colonização holandesa.
[11] Conceito consagrado pelo teórico Paul Gilroy (O Atlântico negro) e utilizado por uma gama de estudiosos e que, além de designar o trecho mais longo – e de maior sofrimento – da travessia do Atlântico realizada pelos navios negreiros entre a África e as Américas, traz à tona a "poética da relação", a identidade diaspórica, o racismo estrutural e outras categorias analíticas. (N. T).
[12] Todas as traduções de Wij slaven van Suriname são de minha autoria. Apenas alguns trechos do livro foram publicados anteriormente em inglês (ver Van Neck-Yoder 1998, p. 667-72). A reflexão de De Kom sobre o complexo de inferioridade da “raça negra” encontra eco na obra de Smeulders 1944. Smeulders (1911-92), um professor de origem surinamesa que trabalhou no Suriname e em Curaçao (ver Van Kempen 2003b:27-29), também denunciou a educação como a principal fonte da vergonha do “negro” em relação à sua própria raça. Em seu livro, Smeulders (1944:11), com base em informações confidenciais sobre abusos pedagógicos no Suriname e em Curaçao, ataca sem reservas seus colegas professores por seus preconceitos de cor e atos de discriminação racial: “A maioria do corpo docente, ou seja, aqueles que devem oferecer orientação moral, está do lado errado” (tradução minha). Smeulders defendia um processo gradual que levasse à plena igualdade entre pessoas de cor e brancas, no qual a educação tinha que desempenhar um papel importante e os modelos “negros” dos Estados Unidos tinham que ter uma participação de destaque. Embora precoces e ousadas na época da publicação, as referências a De Kom não estão incluídas na obra de Smeulders.
[13] Os intelectuais atuais costumam enfatizar com certa frequência a importância de Wij slaven van Suriname como fonte de informação sobre o grupo populacional afro-surinamês (Van Stipriaan et al. 2007:129-30) ou, em termos ideológicos, como precursor do Black Power no Suriname (Helman 1995:31). Isso demonstra não apenas a variedade de interpretações que o texto de Wij slaven van Suriname permite, mas também os diferentes significados que os leitores contemporâneos atribuem ao livro.
[14] Oostindie argumenta que De Kom tentou “apagar” as divisões étnicas características da sociedade surinamesa. Eu diria que ele, no mínimo, subestimou e, provavelmente, também menosprezou essas diferenças, estando excessivamente absorvido por seu esforço para contrabalançar as estratégias de “dividir para reinar” do governo colonial. Ver Oostindie 1990:6. 13. A influência limitada de Multatuli sobre os autores surinameses é discutida em Van Kempen 1998. Sobre De Kom e Multatuli, ver Van Kempen 1998:201-4.
[15] Kinshasa (2002:42, 46) – que não apresenta provas suficientes – acredita que essas relações remontam a 1918, antes de De Kom partir para a Holanda.
[16] Em 1937, esse partido político – que, desde sua fundação em 1894, era um partido de orientação internacional e base marxista e, como tal, o mais importante rival moderado do Partido Comunista Holandês – retirou a luta de classes de seu programa político e adotou incondicionalmente a democracia parlamentar. A partir daquele momento, o SDAP passou a se apresentar como um partido popular nacional. Em 1939, pela primeira vez, o SDAP aceitou cargos no gabinete do governo holandês. De Kom renunciou à postura reformista do SDAP.
[17] Jansen van Galen 2003:8, Kagie 2006:171-74, Para 1989:105, 109-13, Scholtens 1986:80-81, Wijnen 1989:12, 16. Ver também Arquivos Nacionais, em Haia, Governo do Suriname, Arquivo Secreto, 2.10.18, inventário nº. 58, vários documentos.
[18] Boots e Woortman defendem que a publicação preliminar fundamental da qual provavelmente
provêm as citações deste parágrafo não pode ser atribuída a De Kom. Um de seus principais argumentos diz respeito a fontes até então não utilizadas. Ao reconstruir a gênese de Wij slaven van Suriname, Boots e Woortman concluem que considerações estilísticas por parte do editor, e não métodos de censura aplicados pelas autoridades metropolitanas, estavam por trás dos muitos ajustes feitos no manuscrito inicial do livro. Ao determinar a autoria da pré-publicação, no entanto, esses dados podem servir apenas como evidência circunstancial.
[19] Em 1910, Frans Pavel Killinger havia expressado reivindicações semelhantes a favor da independência, mas como não conseguiu levar a cabo o golpe de Estado que planejava e foi detido e expulso do Suriname, suas ideias rapidamente caíram no esquecimento.
[20] Trechos dos artigos de De Kom publicados em Links Richten, De Tribune e De Communistische Gids estão incluídos em Oostindie 1986:66-76, Para 1989:91-130 e Scholtens 1989:13-19.
[21] Segundo Boots e Woortman, é duvidoso que o panfleto tenha a assinatura de De Kom. Sua análise, no entanto, não exclui a possibilidade de que De Kom compartilhasse das opiniões expressas no texto.
[22] Assista ao documentário Wij slaven van Suriname, dirigido por Frank Zichem (1999).
[23] Em Johnson (1982), são utilizadas ferramentas analíticas refinadas para examinar o método de trabalho de Marx, bem como suas premissas filosóficas. É tentador aplicar essas ferramentas a Wij slaven van Suriname para identificar com precisão as influências marxistas presentes no livro. No entanto, uma vez que De Kom é bastante implícito e evasivo quanto à lógica subjacente à sua obra, esse exercício não faria sentido.
[24] Essas palavras lembram a famosa frase de Marcus Garvey: “Emancipem-se da escravidão mental, ninguém além de nós mesmos pode libertar nossa mente” (popularizada por Bob Marley na canção “Redemption Song”). De Kom pode ter se familiarizado com o pensamento e as ações de Garvey em 1920, quando, a caminho da Holanda, trabalhou por dois meses na Société Commerciale Hollandaise Transatlantique em Porto Príncipe, no Haiti. Garvey e De Kom defendiam a emancipação das camadas mais baixas de suas sociedades, Garvey principalmente com base na raça, De Kom com base na classe. Embora sua pequena obra não inclua comentários explícitos sobre Garvey, vale a pena mencionar que De Kom (2003:25) admirava a tradução holandesa do relato de Magdeleine Paz sobre a emancipação negra nos Estados Unidos. Nessa obra, que foi amplamente lida na época de sua publicação, a autora (Paz 1933:199-205) rejeita firmemente o garveyismo como inviável e utópico, e enfatiza a necessidade de colaboração intercultural e multirracial em um movimento operário unificado. Ver também Kinshasa 2002:43-44.
[25] Baseado principalmente em Hira 1982:296-321, Hoefte 1998:180-85, Van Lier 1971:368-78 e Scholtens 1986:74-90, 137- 54.
[26] O anseio por um líder carismático e salvador, capaz de conduzi-los para fora de sua miséria em direção a um refúgio que se assemelhasse a uma terra prometida, tem ocupado as mentes dos javaneses desde os tempos de De Kom. Os principais políticos surinameses-javaneses dispostos a assumir o papel de salvadores foram, sucessivamente, Iding Soemita, Willy Soemita e Paul Salam Somohardjo.
[27] Os historiadores Ben Scholtens e Hans Ramsoedh destacaram esse fato para argumentar que a importância de De Kom como líder sindical surinamês foi seriamente superestimada em comparação com a de Doedel. Ver Scholtens 1987:5, 25 e Brautigam 1999:25-29.
[28] A alegação de Jef Last (1898-1972), um dos colaboradores políticos de De Kom, de que ele teria sido, na verdade, o autor de Wij slaven van Suriname revelou-se falsa. Last, no entanto, prestou assistência editorial a De Kom. Ver Van Kempen 2003a:602, Oostindie, 2008, “Kom, Cornelis Gerhard Anton de (1898-1945)”, Biografisch woordenboek van Nederland, http://www.inghist.nl/Onderzoek/Projecten/BWN/lemmata/bwn5/kom e Van Suchtelen, 2003, “Kom, Cornelis Gerhard Anton de,” Biografisch woordenboek van het socialisme en de arbeidersbeweging in Nederland, http://www.iisg.nl/bwsa/bios/kom.html.
[29] Para mais informações sobre esse período histórico do Suriname, ver Van Lier, R. A. J. Sociedade de Fronteira: uma análise social da história do Suriname. Tradução de Mary Amazonas Leite de Barros. Brasília: Funag/IPRI, 2005. Coleção Países da América do Sul. Disponível on-line. (N. T).
[30] Capitalismo e escravidão, de Eric Williams; tradução Denise Bottmann, prefácio de Rafael Bivar Marquese. – 1ª edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
[31] James, C. L. R. (Cyril Lionel Robert), 1901-1989, Os jacobinos negros : Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domigos/C. L. R. James; tradução Afonso Teixeira Filho, - 1.ed. rev. - São Paulo : Boitempo, 2010. Para mais informações, ver o artigo “Os jacobinos negros”. In https://periodicos.ufms.br/index.php/AlbRHis/article/download/4006/3196/12530
[32] Abordado em Meel 2001:228. Em sua breve resenha desses importantes estudos, Oostindie (2004:498-99) também inclui Cahier d’un retour au pays natal, de Aimé Césaire. Porém, tratando-se de uma obra de poesia, considero menos óbvio incorporar esse livro à comparação aqui apresentada. Apesar das semelhanças óbvias com Wij slaven van Suriname, excluo também Retour de Guyane, de Léon Damas, sendo a principal razão a obscuridade desta obra nos debates historiográficos e políticos no Caribe francófono e além dele.
[33] Compare também Benn (2004:80-85). Solow & Engerman (1987) é uma coletânea de respostas de especialistas aos principais argumentos apresentados em Capitalism and Slavery.
[34] Resumido no famoso aforismo de James: “a questão racial é secundária em relação à questão de classe na política, e pensar no imperialismo em termos de raça é desastroso. Mas negligenciar o fator racial como algo meramente incidental [é] um erro apenas menos grave do que torná-lo fundamental.” Ver James 1989:283.
[35] É difícil avaliar se James considerava isso uma questão de retórica, em vez de princípio. Meeks (1996) revela que as explicações culturais e psicológicas que James apresenta na descrição de Toussaint e Dessalines demonstram que os indivíduos têm, de fato, margem para agir de forma independente e autônoma, uma linha de raciocínio que não se coaduna facilmente com a ortodoxia marxista.
[36] Embora isso continue sendo uma questão de especulação, temos de partir do princípio de que De Kom nunca leu Capitalismo e escravidão, nem Os Jacobinos Negros.
[37] Hira (1982:vii-viii) pretende suprir o que considera serem as deficiências acadêmicas e teóricas de De Kom.
[38] Curiosamente, Van Kempen (2003a:600-1), ao destacar de forma convincente as características ensaísticas do livro, levanta a questão de saber se De Kom, ao escrever Wij slaven van Suriname, pretendia produzir uma obra literária, tendo em vista as numerosas descrições líricas que inseriu no texto. Essa questão fundamental, que se assemelha às tentativas de rotular O Capital, de Karl Marx, como uma obra de arte (Wheen 2006:74-81), ainda aguarda uma análise mais aprofundada. Na minha opinião, De Kom era um ativista político demasiado comprometido para justificar essa suposição. Ele considerava seus dons artísticos principalmente como instrumentos para alcançar seus objetivos sociais. O livro permaneceu na clandestinidade por um período considerável. No Suriname, seu conteúdo só era discutido dentro de um pequeno círculo de sindicalistas e nacionalistas.
[39] O líder nacionalista Eddy Bruma foi um dos poucos políticos surinameses de sua geração que se inspirou comprovadamente na obra Wij slaven van Suriname. Ver Meel 1999:22326 e Marshall 2003:23-24.
[40] Otto Huiswoud (1893-1961), outro ilustre surinamês que se identificava com a classe trabalhadora negra, não atraía essa faixa etária politicamente ambiciosa. Em 1910, aos dezesseis anos, Huiswoud, nascido no Suriname, emigrou para os Estados Unidos, onde se tornou um dos fundadores do Partido Comunista dos EUA. Organizador enérgico e habilidoso em estabelecer contatos, ele construiu um histórico impressionante como sindicalista, jornalista e agente, um colaborador leal da Communist International em todos os aspectos. Em seu primeiro retorno ao Suriname após a emigração, em 1941, foi preso sob a acusação de agitação comunista e permaneceu detido por dezenove meses. Em 1947, mudou-se para a Holanda, onde, como ativista sênior, ocupou cargos de liderança no movimento nacionalista surinamês, mas viveu em condições materiais precárias até sua morte. Embora existam paralelos marcantes entre De Kom e Huiswoud – ambos combinavam posições nacionalistas e internacionalistas e lutavam pelo bem-estar de seus compatriotas –, este último não publicou um livro, foi vítima do anticomunismo americano em vez do colonialismo holandês e não sofreu com a barbárie dos nazistas. Sobre Huiswoud, ver Van Enkevort 2000 e Moore Turner 2005.
[41] Apanjath se refere à “prática de partidos políticos de base étnica que exploram preconceitos, medo e/ou interesses comunitários para obter apoio” (Dew 1993:65). Os militares se propuseram a implementar a ideologia nacionalista para transcender o bairrismo étnico. Principalmente devido ao seu absolutismo imposto pela força de Uzis (arma), eles não conseguiram se conectar com os interesses e aspirações da maioria da população.
[42] Em um estudo anterior, Scott denominou essa forma de história de “narrativa fanoniana de libertação”, envolvendo projetos de autodeterminação anti-imperialista, não alinhamento político e econômico e variedades de socialismo com o objetivo de pôr fim à subordinação e tutela colonial (ver Scott 1999:197-208).
[43] Na opinião de Scott (1999:221) “Bandung” representa “uma forma histórica da problemática do Estado-nação que surgiu como um projeto ideológico e político com os movimentos nacionalistas pela independência política em todo o sul da Ásia, África e Caribe nas décadas de 1930, 1940 e 1950, e para o qual a grande conferência em Bandung, na Indonésia, em abril de 1955, é emblemática.” “O ‘pós-Bandung’”, na opinião do autor, coincide em grande parte com o fim da Guerra Fria e a subsequente transformação das relações políticas de uma ordem mundial bipolar para uma unipolar sob a liderança dos EUA. No que diz respeito à Jamaica, Scott (1999:196, 211, 221, 223) distingue diferentes momentos “pós-Bandung”.
[44] Discutido de forma perspicaz no documentário Wij Slaven van Suriname.
[45] De Kom como herói transnacional é examinado em Meel 2008:257-61.