A ocupação do vale do Guaporé

Por Teresa Almeida Cruz *

 

A ocupação do vale do Guaporé brasileiro se deu a partir de 1734, quando os bandeirantes paulistas, os irmãos Fernando e Arthur Paes de Barros, descobriram ouro no rio Guaporé, nos arraiais de Santana e São Francisco Xavier, onde se formou um núcleo de povoamento (TEIXEIRA, 2004, p. 78-79). Desta forma, o povoamento luso adentrava a floresta amazônica, avançando consideravelmente em terras, que pelo Tratado de Tordesilhas pertenciam à Espanha. Próximo dali, na outra margem do Guaporé, no lado boliviano já havia povoamentos espanhóis através das missões jesuíticas. Assim, no contexto de disputas geopolíticas a região passou a ter uma importância estratégica, refletindo em grande parte as disputas entre Portugal e Espanha pelo controle sobre a bacia amazônica. 

 

Bandeira (1988) analisa que as minas de Mato Grosso e o rio Guaporé passaram a assumir papel político de interesse crucial para a Metrópole que criou uma nova Capitânia para administrar de perto os interesses da Coroa Portuguesa. “Em 1748 D. João V cria a Capitânia de Mato Grosso e Cuiabá e, pela Provisão Régia de 5 de agosto, ordena o estabelecimento de sua capital às margens do Guaporé” (BANDEIRA, 1988, p. 83).

 

Para administrar esta nova Capitânia e construir sua capital, Vila Bela da Santíssima Trindade, foi designado D. Antônio Rolim de Moura, que chega a Cuiabá em 12 de janeiro de 1751, já trazendo a planta da futura cidade feita em Portugal e os projetos das casas de residências elaborados no Rio de Janeiro (BANDEIRA, 1988, p. 83-86). Portanto, temos uma cidade planejada nas entranhas da floresta amazônica já naqueles idos.

 

Ainda como parte do ousado projeto de consolidação da ocupação no vale do Guaporé, a Coroa Portuguesa, como forma de defender o território, decidiu militarizar a fronteira construindo o Forte Príncipe da Beira, cuja edificação transcorreu entre os anos de 1776 a 1783. Este forte perdura até os dias de hoje. Na atualidade constitui uma base militar do Exército do Brasil .

 

Entretanto, para os trabalhos da extração do ouro, das construções da capital Vila Bela da Santíssima Trindade e do Forte Príncipe da Beira introduziram de forma maciça a mão-deobra africana. Por isso que Marco Teixeira reflete que “embora as aspirações colonialistas fossem portuguesas e brancas, o trabalho que erigiu os pilares deste projeto foi, sempre, negro” (TEIXEIRA, 2004, p. 74-75), diferentemente do posicionamento adotado do outro lado do Guaporé pelos espanhóis que preferiram a mão-de-obra indígena. 

 

Segundo Volpato, os escravos negros chegaram a Mato Grosso juntamente com a fixação do povoamento, de monções provenientes de São Paulo. Todavia, após a criação da Capitânia de Mato Grosso e Cuiabá foi liberada a navegação dos rios da bacia amazônica, permitindo a atuação da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão. “Entre 1752 e 1778, parte dos escravos que entraram em Mato Grosso, em especial os que se destinavam a Vila Bela, foi comercializada por esta empresa” (VOLPATO, 1996, p. 215).

 

Como em todas as Américas, no Brasil e, de modo particular no vale do Guaporé, os escravos negros resistiram das mais diversas formas à escravidão. Uma das formas mais ousadas se constituiu na formação de quilombos, reconhecido como a conquista de espaços de liberdade, embrenhando-se nas matas subindo os afluentes do rio Guaporé, no seio na floresta amazônica, que se tornou uma aliada dos quilombolas, fornecendo-lhes refúgio, alimentos, matérias-primas para a construção de casas, de canoas; e os rios se transformaram em caminhos de liberdade, além de oferecerem peixes e quelônios em abundância para a alimentação. Além disso, os quilombolas cultivavam a terra, desenvolvendo a agricultura, considerando as especificidades do ecossistema amazônico, com uma teia complexa de relacionamentos, a exemplo de outras regiões da Amazônia. 

 

Em Vila Bela formaram-se vários quilombos na chapada e no vale do Guaporé. O mais significativo deles foi o Quilombo de Quariterê, também conhecido como Quilombo Piolho, localizado às margens do rio Quariterê ou Piolho, afluente da margem ocidental do Guaporé. É considerada a formação de quilombo mais importante em Mato Grosso pela consistência de sua organização (BANDEIRA, 1988, p. 118-119). Segundo as memórias de Nogueira Coelho, este quilombo foi formado desde os primeiros tempos de exploração das minas da região do Guaporé (COELHO, apud VOLPATO, 1996, p. 222). 

 

O Quilombo do Quariterê foi batido pela primeira vez em 1770 por uma bandeira que partiu de Vila Bela, comandada pelo sargento-mor João Leme do Prado, quando tinha uns 30 anos de existência. Sua população era de mais de 100 pessoas, sendo 79 negros (entre homens e mulheres) e cerca de 30 índios. Nesse período, este quilombo era governado pela rainha viúva Teresa que foi capturada (VOLPATO, 1996, p. 222).

 

Chama a atenção o registro de mulheres quilombolas atuantes como liderança. Segundo o relato de Nogueira Coelho, era uma mulher que governava o quilombo e “bem assistida de índias e negras”. Por este escrito temos que outras mulheres índias e negras colaboravam ativamente com a rainha Teresa de Benguela. Deste modo, um texto masculino nos descortina a ação de mulheres quilombolas que ousaram desafiar o sistema escravocrata português. E a rainha Teresa não se rende à humilhação da destruição de seu quilombo, suicidando-se, como um gesto de revolta ao domínio dos brancos. Prefere morrer a curvar-se ao cativeiro. Pela sua coragem e ousadia, ela se tornou um símbolo da luta das mulheres negras no Brasil. 

 

Outro aspecto interessante deste relato é que, como em outros lugares da Amazônia e do Brasil, havia uma presença significativa de índios e índias no Quilombo de Quariterê. Este caráter interétnico favoreceu a sobrevivência desses marginalizados do sistema escravocrata.

 

Os negros aprenderam com os índios formas de convívio com a natureza e recriaram outras maneiras de viver nas entranhas da floresta amazônica, utilizando de forma sustentável os seus recursos. Aliás, até hoje, no vale do Guaporé permanece esta integração entre negros e índios dos dois lados da fronteira natural entre Brasil e Bolívia. 

 

Os negros que conseguiram escapar desse ataque ao referido quilombo, em seguida, se reorganizaram no mesmo local, vivendo em paz mais de 20 anos até que uma nova expedição, em 1795, quando o capitão-general João de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres “decidiu organizar uma expedição com duplo objetivo: realizar trabalhos de prospecção, no intuito de encontrar novas jazidas auríferas, uma vez que as lavras ao redor de Vila Bela estavam se esgotando e dar caça a escravos fugitivos, batendo os quilombos” (VOLPATO, 1996, p. 222). 

 

Nos documentos da época é recorrente a referência à beleza natural da localização do Quilombo do Quariterê, à fertilidade da terra, à abundância de pesca e caça. Este quilombo, como muitos outros do país, era marcado pela fartura de alimentos, impressionando os seus perseguidores. Havia grandes plantações de milho, feijão, mandioca, batata, amendoim, fava, abóbora, cará, banana, ananás. E estes quilombos conseguiram sobreviver graças às redes de relacionamentos que permitiam fornecimentos de alguns produtos e informações sobre as ações de seus perseguidores.

Parafraseando Gomes (1997, p. 20-21), utilizando a comparação da mitologia grega, como a Hidra de Lerna era impossível de ser destruída, pois de cada cabeça cortada nasciam outras, devido ao “pântano mefítico” onde ela habitava, as hidras, ou seja, os quilombos do Guaporé, como os de todo o Brasil, sempre que atacados renasciam de diferentes formas em vários “pântanos”, em diferentes cenários históricos, e não desapareceram, chegando aos nossos dias através de seus “remanescentes” quilombolas espalhados em quase todo o território nacional e que hoje lutam pelos seus direitos de cidadania, direitos históricos que foram conquistados na Constituição de 1988. Isto revela como os escravos se tornaram sujeitos sociais, tecendo suas histórias de resistência e lutas que continuam hoje através da ação histórica de seus descendentes.

 

Desde o final do século XVIII que há uma diminuição considerável da produção de ouro e do movimento comercial em Vila Bela. No início do século XIX Vila Bela e todo o vale do Guaporé entraram em profundo estado de decadência e abandono que se agravou com a formalização de Cuiabá como capital da Província de Mato Grosso através da Lei nº 19 de 28 de agosto de 1835. Diante da inviabilidade econômica da região os donos de escravos mudaram para áreas mais prósperas nas cercanias de Cuiabá, deixando, curiosamente, a maior parte de seus escravos em Vila Bela que se tornou uma cidade exclusivamente de população negra. 

 

Tudo indica que, a partir do processo de abandono da região do Vale do Guaporé pelos senhores brancos, muitos dos quilombolas que se refugiaram em afluentes do Guaporé, como do Riozinho e de São Miguel, vieram para as margens deste rio principal, sendo que não havia mais perigo de serem recapturados, estabelecendo-se como agricultores e extrativistas. Assim, desde Vila Bela da Santíssima Trindade até o Forte Príncipe da Beira, temos a constituição de vários povoados negros como Laranjeiras, Rolim de Moura do Guaporé, Tarumã, Pedras Negras, Santo Antônio do Guaporé, Santa Fé e Forte Príncipe da Beira. A partir da falência  desse sistema, a população afrodescendente  construiu novas formas de viver e saber, baseadas na liberdade, na sustentabilidade ambiental.

 

*Universidade Federal do Acre, doutora em História. Pesquisa realizada com bolsa de estudo do PRODOUTORAL da CAPES.

FONTE: http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1363526533_ARQUIVO_COMUNIDADESQUILOMBOLAS1.pdf