Memória, Visualidade e Protagonismo Cultural Surd@s na 24ª Semana Nacional de Museus
Esta exposição virtual integra a seção Cultura Surda do MIIS-RO e reúne vídeos e fotografias de um evento de performance surda realizado como desdobramento de uma oficina em Libras. Ao apresentar esse conjunto em ambiente digital, o museu valoriza a imagem, o corpo, a visualidade e a memória como dimensões centrais da experiência surda, reconhecendo a comunidade surda como produtora de linguagem, arte e conhecimento. Os materiais aqui reunidos preservam não apenas um acontecimento, mas a força de um processo coletivo em que gesto, presença e criação se tornam patrimônio sensível.
A mostra dialoga diretamente com o tema da 24ª Semana Nacional de Museus — “Museus: unindo um mundo dividido” ao afirmar o museu como espaço de direitos, acessibilidade, participação social e reconhecimento de memórias historicamente invisibilizadas. Nesse horizonte, o MIIS-RO acolhe a cultura surda como campo próprio de expressão e interpretação do mundo, contribuindo para ampliar o direito à memória e a pluralidade das narrativas culturais.
Projeto Conexão Surda
A Oficina de Teatro e Performance em Libras é uma ação do Projeto Conexão Surda [1], realizado pela Associação de Surdos de Porto Velho (ASPVH). A atividade foi pensada e preparada para pessoas surdas, e marca o início de um movimento de criação e consolidação de um Núcleo de Arte e Cultura da instituição.
A ação teve 66 participantes surdos inscritos, e foi conduzida pela atriz surda Renata Rezende, vinda de Brasília, que trouxe uma abordagem focada na na expressividade corporal e nas possibilidades cênicas da Libras. Foram trabalhadas práticas teatrais e performáticas que dialogam também com a forma como a comunidade surda se comunica e constrói sentidos no mundo. Depois de quatro dias da oficina, o grupo compartilhou a criação coletiva construída, tendo como ponto de partida os elementos da história de Rondônia, em uma apresentação aberta ao público, no palco do Teatro Municipal Banzeiros.
[1] O Conexão Surda é um projeto de desenvolvimento institucional, proposto e pensado
por Jonathan Ignácio, com direção de Danilo Ramos, que foi contemplado
na 5ª edição do programa Nutrindo Soluções Locais, da Fundação Cargill.
O projeto tem como fito contribuir na melhoria da infraestrutura pedagógica e
administrativa da associação, promover formação em arte teatral
para surdos, curso de Libras avançado para ouvintes, além de
outras ações de cultura e protagonismo surdo.
por Jonathan Ignácio
Coordenador do Projeto
O Presidente da ASPVH e Diretor Danilo Ramos e o Coordenador Jonathan Ignácio apresentam o resultado da Oficina de Teatro e Performance em Libras
Projeto contemplado na 5ª Edição do Programa Nutrindo Soluções Locais, da Fundação Cargill. Fotografias: Lucas Gabriel
GALERIA DE FOTOS DO EVENTO
(CLIQUE NAS IMAGENS ABAIXO)
Silêncio que fala: A epistomologia da cultura surda
Soniamar Salin (2)
Onde o ouvinte percebe o silêncio, o Surdo encontra uma polifonia de movimentos. Em um espaço dedicado ao Som, à Imagem e à Palavra – MIIS-RO, a Cultura Surda se apresenta como o ponto de intersecção máxima entre esses três pilares. Ela descontrói a hegemonia do fonocentrismo para revelar que a palavra pode ser gesto, o som pode ser vibração e a imagem é a sintaxe fundamental da existência.
Quando as Mãos Viram Voz
A Cultura Surda não nasce do silêncio, mas daquilo que o silêncio permite ver. Ela é uma forma de existência que desloca o som do centro da experiência humana e coloca a visão como eixo sensorial, político e poético. Para quem vive nesse território, a língua não vibra no ar por ondas sonoras — ela se desenha no espaço, se inscreve no corpo, se projeta como imagem em movimento. A Libras, assim como outras línguas de sinais do mundo, não é tradução do português nem mímica improvisada: é uma língua plena, com gramática própria, ritmo, sintaxe e uma estética que transforma cada gesto em significado. O corpo inteiro participa da construção da frase; o rosto carrega entonações; o espaço funciona como pontuação. É uma língua que não se ouve — se vê.
Ser surdo, na perspectiva cultural, não é “não ouvir”, mas pertencer a uma comunidade que compartilha uma língua, uma memória e uma forma singular de perceber o mundo. A identidade surda se constrói no encontro: no Sinal pessoal que substitui o nome, na literatura visual que transforma narrativas em performances, na poesia que se move como câmera, no humor que nasce do olhar atento, na franqueza que valoriza a clareza visual. A comunidade surda desenvolveu normas sociais próprias, moldadas pela necessidade de presença: olhar é escutar; desviar o olhar é interromper a conversa; chamar alguém envolve luz, toque leve, gesto no campo visual. É uma cultura que exige atenção plena — e oferece, em troca, uma comunicação direta, precisa e profundamente humana.
Falar em epistemologia da cultura surda é reconhecer que o saber também se produz pela visualidade, pela presença corporal, pela reciprocidade do olhar e pela construção comunitária da comunicação. Ver é participar. Compartilhar o campo visual é produzir vínculo. Essa ética da atenção propõe outra pedagogia do encontro, na qual o conhecimento nasce da relação, da escuta visual e do reconhecimento mútuo.
Essa reflexão ganha força diante do tema da 24ª Semana Nacional de Museus. Ao convocar os museus a enfrentar invisibilizações, ampliar a participação social e garantir o direito à memória, o texto-base da Semana propõe uma revisão das estruturas institucionais e dos modos de legitimar narrativas. A presença da cultura surda no MIIS-RO responde diretamente a esse desafio, ao transformar o museu em espaço de acessibilidade, pluralidade e justiça simbólica.
O silêncio que fala, portanto, não é paradoxo: é afirmação. Ele mostra que a linguagem pode vibrar no corpo, que a memória pode ser construída por imagens em movimento e que a cultura surda amplia o próprio entendimento de humanidade, comunicação e arte. Ao acolher essa experiência como produção estética e intelectual, o MIIS-RO reafirma o museu como território em que as diferenças não são corrigidas, mas reconhecidas como formas indispensáveis de criação e conhecimento.
O que é performance surda
A performance surda é uma linguagem artística estruturada a partir do corpo, da Libras, da visualidade e da presença. Em vez de depender do som como eixo principal, ela organiza sua força expressiva por meio do gesto, da expressão facial, do ritmo corporal e da ocupação do espaço. Trata-se de uma arte que produz sentido visualmente e transforma a cena em lugar de comunicação, invenção e elaboração simbólica.
Na cultura surda, o corpo participa integralmente da linguagem. O rosto carrega entonações, o espaço organiza a frase e o gesto inscreve o significado. Por isso, a performance se torna um campo privilegiado de criação: nela, língua, identidade e experiência visual se convertem em matéria estética. O que se apresenta ao público não é somente uma narrativa, mas uma forma de pensamento em ato.
A performance surda também possui dimensão política. Ao colocar a Libras e a visualidade no centro da cena, ela confronta o apagamento histórico das línguas de sinais e afirma outras formas de produzir arte e conhecimento. Nesse sentido, não é apenas manifestação artística, mas afirmação cultural, memória coletiva e presença social.
No MIIS-RO, a performance surda ganha relevância especial porque aproxima arte, memória e registro audiovisual. Quando preservada em vídeo e fotografia, ela permanece como documento vivo de uma experiência artística e comunitária, ampliando o entendimento do museu sobre linguagem, imagem e patrimônio cultural.
[2] SONIAMAR DOS SANTOS SALIN
Me. Linguagens, Códigos e suas Tecnologias;
Pesquisadora Independente;
orcid: https://orcid.org/0009-0003-5354-3551
Teaser do Projeto Conexão Surda
(clique no vídeo para assistir)
Lista Nominal - Oficina de Teatro Surdos
Aline Andrade Santos
Alysson Wylder Melo Terco
Anderson da Cruz Olimpio
Anderson Ferreira Esperidiao de Jesus
Andrea Rodrigues Machado
Andrey de Oliveira Farias
Beatriz Gomes Pontes
Camila Feitosa Monteiro
Camille Geovanna
Carlos Eduardo Pereira das Neves
Cinthia de Araújo
Cledson Pereira da Costa
Dalvan Ferreira Esperidiao de Jesus
Daniele Vitória Souza da Silva
Eduardo Lima Brito
Elcimara Fernandes da Silva
Emanoel José Diego
Emanuel Roberto Carvalho
Emerson Lucas Vasconcelos Santos
Gabriel Nobre Luz
Gabriela da Silva Torres
Giovanni Lima Cedaro
Gustavo Izaias
Hélio Duarte dos Santos Filho
Hiarley Oliveira da Silva
Indira Simionatto Stedile Assis Moura
Joana Alessandra Leite
Joana Rosa
João Vitor
Josilene Silva de Oliveira
Julia Assunção Nascimento da Silva
Kauan Ambrosio de Oliveira
Kisy Rayol de Oliveira Silva
Leticia Sophia
Linda Yasmin Costa de Souza
Lucas Silva
Lucivana
Maria Gomes Coutinho
Mateus de Oliveira Moura
Matheus Camilo Teixeira
Millena Vitoria Damasceno
Mirilene Silva de Almeida
Neuranir Nascimento dos Santos
Pablo Ferreira dos Santos
Patricia Victor da Silva Souza
Rafael Mota Nascimento
Rafaela Cristina Assiry Pereira
Rafaela Lima Domingues
Raila Lohany Souza dos Santos
Reijano da Silva Souza
Sofhia Steffany Lemos de Almeida
Tatiane Cardoso de Melo
Uilian Oliveira Dias
Vitória Queiroz da Fonseca
Yasmin Gouveia Abreu