NHARAMAÃ [Apropriação da Terra] propõe olhar a formação de Rondônia a partir das relações que pessoas, povos, comunidades, instituições e economias estabeleceram com o território. Antes da estrada, do lote, da cidade e dos projetos oficiais de ocupação, já existiam terras vividas, percorridas, nomeadas e conhecidas por povos indígenas e populações vinculadas aos rios. Com a expansão das frentes de colonização, novas formas de apropriação redesenharam caminhos, fronteiras, propriedades, paisagens e modos de vida. O percurso expositivo organiza essas transformações em cinco núcleos complementares, sem apresentar a história regional como processo único, linear ou inevitável. Essa perspectiva mantém a fotografia como documento histórico situado e os sujeitos fotografados como protagonistas da narrativa.
Desde 1977, o projeto Nharamaã, de Marcos Santilli e Marlui Miranda, acompanha fotograficamente e sonoramente parte dessas mudanças humanas, sociais e ambientais. Ao atravessar os cinco núcleos, torna-se evidente que apropriação da terra possui sentidos diversos e frequentemente conflitantes. Habitar, cuidar, pescar, plantar e transmitir conhecimentos não são gestos equivalentes a dividir, invadir, desmatar, explorar ou retirar recursos. Reunidos, os registros tornam perceptíveis diferentes maneiras de produzir território e as desigualdades de poder que acompanharam a formação histórica de Rondônia.
Ao dialogar com o tema da 20ª Primavera dos Museus, “Museus para todas as pessoas”, a exposição leva essa reflexão ao campo da representação. Tornar um acervo acessível não significa apenas colocá-lo diante de mais visitantes. Significa perguntar quais sujeitos permaneceram com seus nomes e trajetórias, quais permaneceram anônimos, quais histórias foram privilegiadas e quais sobreviveram apenas nas famílias, comunidades ou memórias locais. A diversidade das fotografias não garante, por si mesma, a pluralidade das narrativas: é a mediação museal que pode criar espaços para novas leituras, identificações e vozes.
Nesse sentido, a fotografia produz outra forma de apropriação: a reapropriação da memória. Ao retornar ao espaço público décadas depois de sua realização, cada imagem pode recuperar nomes, lugares, vínculos e acontecimentos. Pessoas fotografadas deixam de ocupar apenas a posição de personagens do passado e podem ser reconhecidas como sujeitos históricos. Comunidades podem acrescentar lembranças e interpretações, desde que testemunho, pesquisa documental e catalogação permaneçam claramente diferenciados.
Ao disponibilizar esse recorte de 25 fotografias, organizadas em cinco núcleos, o MIIS-RO transforma parte deste acervo particular em espaço de escuta e participação. Territórios vivos, abertura e fixação, cotidiano, extração e controle, devastação e memória deixam de funcionar como capítulos isolados e passam a compor uma mesma reflexão sobre as múltiplas formas pelas quais Rondônia foi habitada, apropriada e transformada.
As imagens permanecem, portanto, menos como respostas definitivas do que como interrogações lançadas ao presente. Elas colocam o visitante diante de presenças e ausências, permanências e deslocamentos, riqueza e perda, pertencimento e exploração. Reapropriar-se dessas fotografias pode significar também reapropriar-se da própria memória: reconhecer que o patrimônio não reside somente no documento preservado, mas nas relações que ainda podem ser restabelecidas entre imagens, pessoas, comunidades e territórios.
CURADORIA
Elisabete Chritofolleti
Nilson Carolino
Joesér Alvarez
Apropriar-se da terra não significa uma única coisa. Antes da propriedade formal, da estrada e da urbanização dirigida, existiam territórios conhecidos por seus cursos d’água, modos de subsistência, deslocamentos, conhecimentos e vínculos comunitários. Estas imagens deslocam o início da narrativa para a presença: rios onde humanos e animais compartilham ecossistemas; práticas de pesca transmitidas e adaptadas; corpos indígenas atravessados pela nova infraestrutura; mulheres Suruí Paíter em um espaço em transformação; e lideranças que, décadas depois, transformam presença em palavra política. O território aparece, assim, como lugar de vida, conhecimento, memória e disputa por reconhecimento.
A formação territorial deixa marcas visíveis. Fortificações, estradas, clareiras, casas, caminhões e povoados materializam sucessivas formas de controlar, atravessar e fixar-se na terra. O processo não ocorre de uma vez: a rua nasce onde antes havia mata; o comércio aparece ao lado da terra aberta; o caminhão prolonga a exploração para além do núcleo urbano; uma vila ribeirinha preserva outra lógica de assentamento. Este núcleo evita tratar a ocupação como abstração administrativa. Ela é apresentada como ação concreta sobre a paisagem e como reorganização do espaço, dos deslocamentos e das relações sociais.
Uma comunidade não se resume à abertura de ruas ou à criação de lotes. Ela se consolida quando surgem escolas, ritos, formas de lazer, comércio e repertórios culturais. Aqui, a apropriação assume uma dimensão afetiva e cotidiana: aprender em uma sala de madeira, preparar-se para o casamento, trabalhar e consumir na cidade, dividir uma refeição, manter referências musicais em um quarto distante dos grandes centros. Essas cenas revelam o território como experiência social. Ao lado da precariedade material, surgem desejo, identidade, circulação cultural e formas de permanecer.
NÚCLEO 4 — APROPRIAR, EXTRAIR E CONTROLAR
Apropriar-se da terra também pode significar convertê-la em recurso. No rio, balsas e trabalhadores reorganizam a paisagem em função do ouro; em terra firme, o garimpo de cassiterita escava outra geografia. O trabalho humano aparece pequeno diante da escala da extração. Ao mesmo tempo, a própria história regional registra instituições de controle, contenção e punição. Reunidas, estas fotografias tornam visível uma pergunta que atravessa o projeto: quem trabalha, quem controla, quem se beneficia e quais marcas permanecem depois que a riqueza é retirada?
A apropriação da terra deixa vestígios. O fogo abre espaço, elimina vegetação, altera ecossistemas e transforma a paisagem em cinza e fumaça. Mas as imagens também registram permanências: quem planta depois da derrubada, quem transforma antigas trajetórias de trabalho em outros modos de sustento e quem envelhece no mesmo território ao longo dos anos. O núcleo final reúne destruição e duração sem reconciliá-las. A série familiar converte a fotografia em medida do tempo; o agricultor diante da área queimada introduz o paradoxo de produzir vida sobre uma paisagem devastada. Ao final, o acervo deixa de responder e devolve ao público a tarefa de reconhecer o que foi perdido, o que permaneceu e o que ainda pode ser lembrado.
A família de João Guerin — Ariquemes, 1977, 1978, 1981 e 1990.
Fotografia de Marcos Santilli©
As imagens desta exposição foram selecionadas pela curadoria do MIIS-RO a partir do acervo fotográfico disponível em
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Todas as fotografias são de autoria de Marcos Santilli©
Saiba mais:
https://www.instagram.com/marcos_santilli/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcos_Santilli
https://www.facebook.com/Marcos.Santilli/?locale=pt_BR
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/1899-marcos-santilli
https://www.escritoriodearte.com/artista/marcos-santilli
https://mfd.mus.br/pt/fotografos_convidados/santilli/
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